30 junho 2009

Lista dos desejos





Este selinho, oferecido pela Janaína do Mais Um , é como uma corrente entre os blogs e quem recebe deve passar adiante...

As regras dele são:
1) A pessoa selecionada deve fazer uma lista com oito coisas que gostaria de fazer até o fim da vida;
2) É necessário que se faça uma postagem relacionando estas oito coisas e é necessário que a pessoa explique as regras do jogo;
3) Ao finalizar, devemos convidar oito blogs;
4) Deixar um comentário para quem nos convidou.

Então vamos lá com a lista...
Parece simples mas não é, principalmente pra mim que não sou de fazer planos.

♥ Acho que o primeiro deles é terminar bem minha faculdade, tendo aproveitado tudo que ainda está por vir na minha formação, os estágios, as aulas, toda e qualquer experiência;

♥ Segundo é curtir muito a região sul, onde moro agora. Sabe-se lá, nessa nossa vida nômade, até quando vamos ficar por aqui. Mas espero que por uns bons anos ainda;

♥ Em terceiro, e à longo prazo, é ter um filho. E tempo pra cuidar dele;

♥ Em quarto, trabalhar. Muito! E continuar meus estudos sempre;

♥ Em quinto, e bem subjetivamente falando, quero me sentir útil. Não só no trabalho, mas em qualquer atividade ou relação. Quero, no final de tudo, sentir que vivi intensamente. E acredito que isso se valha mais das pequenas coisas do dia a dia do que de um grande feito;

♥ Em sexto quero conhecer alguns países. Sei que não vai dar pra dar a volta ao mundo, mas um que tenho certo como escolha é a França;

♥ Em sétimo desejo longa vida aos meus;

♥ Em oitavo quero uma bota nova e um chinelo, porque o Zeca destruiu todos...

Os blogueiros para quem repasso o selo são:
Amanda Soares
Márcio Beckman
Bruna Matos
Dani Cabrera
Sara
Vanessa

26 junho 2009

bem concreta e verde...

estou feliz. uma alegria mansa, clara, calma, quase um suspiro.
não uma alegria eufórica, gritante, confusa, advinda das coisas que surpreendem e desorganizam, mesmo em função de um grande acontecimento!
mas sim, estou vivenciando um grande momento. e sinto a alegria de alguém que fez por merecer, de alguém que construiu aos poucos a obra que agora observa ao longe. e reconhece.
buscar reconhecimento demais fora de si, é ter falta de reconhecimento dentro. pois então é chegada minha vez de contemplar...
e estar feliz por saber que o melhor ainda está por vir, e que toda a paciência que cultivei será recompensada.
estou feliz. quieta, cá, no meu canto. mas feliz. (assim, sem exclamações...)



sophia compeagá


p.s.: uma de minhas violetas floresceu esta semana... depois de 1 ano, agora que o sol voltou a nascer na janela da cozinha e bater nelas de manhã. não é uma graça?

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"aqui em casa pousou uma esperança. não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. mas a outra, bem concreta e verde: o inseto"
(clarice lispector em 'felicidae clandestina').

16 junho 2009

dos laços

Existe um termo que ouço muito na faculdade e acho interessante, "amarração", que significa a capacidade de união de dois conceitos ou ainda, a união do conceito à prática. Uma coisa está amarrada quando o conceito se completa e se esclarece, principalmente conceitos que vão se complementando aos poucos até que se chegue a uma compreensão mais global do assunto, o que é comum nas disciplinas. Claro, essa é a minha amarração a respeito do termo!
De tanto ouvir e pensar sobre a estranheza da expressão, lembrei de quando era criança e de quando aprendi a amarrar meus próprios sapatos. Parecia uma coisa tão absurda na sua complexidade, e minha mãe era capaz de fazer aquele laço - que vinha depois do nó e era formado por dois outros semi-laços - numa velocidade incrível! Enfim aprendi! Mas o valor à nova habilidade não durou muito, logo passei a esconder o cadarço do tênis embaixo da palmilha, como faço até hoje, e o encanto do laço no sapato se perdeu!
Hoje penso que, mais difícil que aprender a amarrar os próprios sapatos, é aprender a desamarrá-los. No mundo subjetivo os sapatos não só deixam de servir por estarem menores que nossos pés, mas também por estarem maiores e pesados demais. E as desamarrações então se fazem necessárias.
Estou aprendendo a desamarrar os meus. Talvez com um pouco de atraso, talvez no tempo certo das minhas necessidades.
Mas aprender a desamarrar e abandonar velhos calçados é imprescindível para que se possa caminhar com os próprios pés e escolher os próprios caminhos.


Sophia Compeagá

10 junho 2009

das constatações


Deve haver um tempo certo para tudo. E não falo de destino nem nada parecido, falo sobre a gente não se dar conta de certas coisas - mesmo aquelas que estão no nosso nariz com uma seta verde-fosforescente enoooorme e piscante - até que estejamos preparados para tal.
A aceitação de uma idéia desagradável, a constatação de um fracasso ou a admissão de uma culpa só se dão quando de alguma forma a gente se sente protegido o suficiente para acolher a nova informação.
Mas há casos em que essa regra não se aplica, é quando vem a vida e nos empurra para certas situações em que somos obrigados a aceitar algumas verdades, goela a baixo, à seco, insípidas.
Como um tapa na cara a realidade se apresenta sem nenhuma sutileza.
Então a ficha cai, a casa cai, a gente cai.
'A pior queda é cair em si mesmo'.


Sophia Compeagá

27 maio 2009

do estranho

tantas vezes a gente finge ser normal sem se lembrar de que normal mesmo é ser diferente.
e finge com tamanha força que acredita na própria mentira e também a espera dos outros.
vou criando meus dias, me recriando entre os dias,
dia sou, dia não sou, às vezes estou onde não sou.
quase nunca estou onde sou.
às vezes há encontro.
estranha essa coisa de existir.

sophia compeagá

14 maio 2009

In-sights

"Ele gostava tanto dessas palavras começadas por in – invisível, inviolável, incompreensível - que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias".

(Caio F. Abreu em “Os Dragões não Conhecem o paraíso”)

06 maio 2009

Com-tradições

Falei tanto sobre felicidade e infelicidade nos últimos posts mas, noto agora, acabei por não concluir muita coisa. Disse, desdisse e contradisse-me um punhado de vezes, sem fazer-me compreender.
E é assim mesmo, as palavras nunca se esgotam e o desejo de se entender nunca é totalmente satisfeito. Afinal, quem pode tocar palavras?
No final, tudo acaba parecendo uma grande hipocrisia. E talvez seja mesmo. Mas achar todo mundo hipócrita é outra forma de ser.
Eu acho. E sou!
Se hipocrisia for ter em desarmonia o que se diz, pensa e faz, então sou a própria personificação da palavra. Além do mais, todo mundo sabe que quem repete demais as mesmas coisas, ainda não tem claro para si o que quer dizer. Cá estou novamente!
Mas, voltando à questão da felicidade, acho que a dificuldade em defini-la está na necessidade que temos em dicotomizar tudo, separando as palavras sempre em pares de opostos. Só que a vida não é assim, e nos prova todos os dias que os opostos se encontram e se complementam.
O sofrimento faz parte da vida e o ser humano precisa desta tensão que o perpassa continuamente, desta insatisfação que nos leva à algum lugar. O que nos move é o desejo, e o desejo nasce da falta.
Naturalmente este tema mobiliza. Como dizer que a felicidade, universalmente considerada como o horizonte da vida, não existe?
Acho que no final o grande aprendizado da vida consiste em simplificar os problemas, e simplificar-se a si mesmo. O que mais nos faz sofrer é achar que somos especiais demais, diferentes demais, tanto inferior quanto superiormente. Não que eu tenha alcançado este estado de compreensão e desapego dos meus problemas... devo estar bem longe disso. Ainda dou muita importância às minhas dores e conflitos e este blog é a prova viva disso. Mas já me dei conta desta minha desfunção, e este já é um grande passo!

Enfim, só sei falar de mim.
Eis aqui um blog egoísta e hipócrita de um ser humano estranho e confuso com um tremendo desejo de explorar as contradições do viver.






Sophia Compeagá







"- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina.
A professora olhou para Joana.- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
- Ser feliz é para se conseguir o quê?
(Um dia - Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector)

26 abril 2009

Super Zeca




"(...)Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana. Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor..." (Freud, 1926)





É, Zeca não é lá um nome de grandes origens...
Mas meu Zeca se torna herói nas tantas vezes em que me salva... especialmente de mim!
Com suas peraltices fora de hora está sempre me lembrando de não levar a vida tão à serio.
E acabo me dando conta de que talvez eu também ME leve à sério demais...
E é atribuindo tanto valor à coisas tão simples, como o reencontro do final do dia,
que ele me aponta a urgência de viver!

09 abril 2009

da repetição



Já não sei mais se realmente nossa evolução se dá por fases e fases que se sobrepõem e cada vez nos expõem a desafios maiores ao mesmo tempo que nos preparam para enfrentá-los.
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Fatalmente tenho constatado que o que realmente nos move (ou estagna, mas nos mantém em pé) seja um estranha força gravitacional que nos atrai para um mesmo ponto e funciona enquanto nos mantemos engrenados no seu eixo, mas que, por alguma razão, pode deixar de funcionar e nos fazer, em vão, girar soltos sobre uma mesma energia que não se altera, que não se modifica, e nos faz fatigamente repetir os mesmos erros.


Mas que crescimento haveria nisso, mesmo que a engrenagem funcionasse?
Talvez estejamos falando de um espiral ascendente onde, embora esteja cada pessoa pré-destinada a girar no mesmo ângulo, de alguma forma esta energia nos eleve, e nos leve a alguma evolução.

Ignore qualquer teoria, a única certeza que tenho é de que saí do eixo. E que gradualmente tenho tentado retornar (se é que algum dia eu já estive no meu total equilíbrio e funcionamento). E já não sei dizer se há, sequer, força gravitacional alguma sustentando e integrando meus sentimentos, pensamentos e ações.
Não sei onde parei, e talvez seja esse deslocamento que me faça repetir e repetir a mesma história na tentativa de integrar alguma coisa e me tornar UMA.

Mas quem sabe Clarice esteja certa quando diz que na repetição acaba-se cavando pouco a pouco.
Quem sabe eu esteja sim no caminho certo e seja este apenas mais um momento de desafio, daqueles que nos põem em cheque e nos obrigam a enfrentar os riscos para depois nos fortalecermos com a experiência.

Talvez esteja eu, como Dorothy, trilhando a estrada de tijolos amarelos que me levam a Oz. Ou talvez esteja já em vias de me encontrar com o Mágico que me indicará o verdadeiro caminho de casa. Ou talvez esteja ainda dentro do tornado...

Acabo de me dar conta, os tornados também têm a forma de espirais...

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Por Sophia Compeagá



08 abril 2009

Da sublimação (desta vez da 'sublimação química' mesmo)


Desisti de tentar ser feliz e escolhi viver.
A felicidade me soava como uma estagnação, e a obstinação em ser feliz me exigia um controle absoluto sobre atos e escolhas, e eu já não sei mais se quero fazer sempre as escolhas certas. Sem falar que quanto mais se tenta controlar alguma coisa, qualquer coisa, mais esta lhe escapa, inevitavelmente.
Por isso eu digo, felicidade mesmo, em estado sólido não existe. Felicidade é líquido, que não se vende em frascos...
O que eu quero e decido agora é viver da forma mais consciente possível.
Afinal, ser feliz é ouvir o anjinho ou o diabinho dentro de mim?

Eu escolhi viver, e escolhi impor respeito pelas minhas escolhas.
Pode até ser que a felicidade bata na minha porta em decorrência disso, mas que eu saiba que ela é passageira, e não tem morada.
Não que eu queira a infelicidade, ou que eu viva colecionando cicatrizes, só não quero me acomodar, até porque felicidade é coisa tal com a qual ninguém se acomoda. Como água, adquire a forma do seu receptório e, se a tentamos prender, nos escorre pelos dedos...
Talvez felicidade exista, mas tenha vida própria, e vague por aí visitando pessoas distraídas.


Com tudo isso o que eu quero dizer é muito simples, não quero me distrair, mas também não quero controlar. Só quero sentir que estou vivendo minha história ativamente. Para que no fim eu saiba que vivi à minha maneira, e se valer a pena, foi porque eu fiz ser assim.

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Por Sophia Compeagá

03 abril 2009

Sobre cartas, irmãs e saudades...

Por Clarice Lispector


"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.
Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...
Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

(Carta escrita por Clarice à irmã em 1947 quando em Berna - Suiça se dizia com saudades do Brasil)





Por falar em carta à irmã e saudades, hoje a Leilane faz 20 anos!
Aff... o tempo passa! Ainda guardo viva a lembrança daquele toquinho de gente que descascava a cara das minhas bonecas.
Mas esses traumas a gente nunca esquece mesmo! =D
Querida irmã, é muito bom poder contar com sua amizade que, independente do laço familiar, é sincera e incondicional. Amo e admiro sua espontaneidade, sua honestidade (isso tivemos onde aprender), sua franqueza (bota franqueza nisso) e dedicação em tudo que faz e com as pessoas à sua volta. Ser sua amiga é um privilégio, ser sua irmã é uma bênção!

Te amo muito, Nanyka!
Parabéns pelo seu dia!
Morro de saudades...

27 março 2009

Que ninguém se engane...


De todas as coisas do mundo o que realmente importa é o que realmente importa.
Ser a pessoa ideal e ter a vida "perfeita" agrada a todos menos a nós mesmos.
Não interessa se você casou virgem, torce pro mesmo time de futebol desde pequenininho e cursou a faculdade dos sonhos do seu pai se estes valores não forem realmente os seus, ou se nunca ousou questionar-se sobre eles.
O melhor da vida é reconhecer que é impossível agradar a todos, e a partir disso se abrir pro que há de vir. Porque quando se é flexível e espontâneo, se aprende a reconhecer e aproveitar as melhores oportunidades.
Quem vai fundo na vida aprende que o impossível acontece, e que se tivermos fé as coisas podem vir a melhorar. E que fé não é a crença em algo maior fora de nós, mas dentro. É aquilo que não nos deixa desistir de nós, mesmo que a realidade não aponte muitas saídas. É essa força lá no fundo que insiste em insistir.
Sejamos mais que insistentes, sejamos teimosos diante da vida, mas pacientes com nós mesmos.
Sejamos qualquer coisa mas nunca uma coisa só.
Vive bem quem desenvolve a capacidade de recomeçar.
Cada um tem um conceito de felicidade, o meu é que felicidade não existe. Perfeição muito menos.


Sophia Compeagá




"Que ninguém se engane,

só se consegue simplicidade

através de muito trabalho".

(Clarice Lispector)

11 março 2009

da tentativa de entender a fé


Tem fé quem aprendeu a reconhecer e aceitar a própria solidão e a ser sua melhor companhia. Tem fé quem confia que, na adversidade, terá sabedoria e leveza suficientes para escolher entre desafiar o destino ou submeter-se a ele. Tem fé quem tem coragem, e coragem se conquista.
Fé não é confiança cega de que tudo ocorrerá a seu favor. Fé é seguir adiante apesar da dúvida.



Sophia Compeagá

25 fevereiro 2009

Dizemos

'Dizemos aos confusos: Conhece-te a ti mesmo,
como se conhecer-se a si mesmo
não fosse a quinta e mais difícil
operação das aritméticas humanas.
Dizemos aos abúlicos: Querer é poder,
como se as realidades bestiais do mundo
não se divertissem a inverter todos os dias
a posição relativa dos verbos.
Dizemos aos indecisos: Começar pelo princípio,
como se esse princípio fosse a ponta sempre visível
de um fio mal enrolado que bastasse puxar
e ir puxando até chegarmos à outra ponta,
a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda,
tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa
e contínua em que não havia sido preciso
desfazer nós nem desenredar emanharados,
coisa impossível de acontecer na vida dos novelos,
e, se uma outra frase de efeito é permitida,
nos novelos da vida'.


Por José Saramago
.
.

23 fevereiro 2009

Sobre cães, aniversários e rimas estranhas...



Este blog vai fazer 2 anos!
Embora eu não tenha "comemorado" seu aniversário de 1 ano, vasculhando as postagens antigas, notei que foi justamente no primeiro aniversário que comecei a escrever. Até então eram apenas citações, textos de outras pessoas, já que a proposta inicial da postagem de apresentação era justamente essa.

Timidamente passei a publicar minhas próprias coisas. E eu as chamo assim, de coisas, porque prefiro não nomear essas palavras soltas como poesia ou dar qualquer outra descrição. Não me acho nenhuma escritora ou poeta (apesar de ter encontrado no dicionário "aquele que devaneia" como um dos significados de poeta e ter me identificado muito).


Nem sei se comunico alguma coisa, não sei se me faço entender. Na verdade me preocupo pouco com isso.

Refletindo sobre o sentido deste espaço pra mim, percebi que escrever aqui proporciona aquilo que eu já citava na minha
primeira postagem, de que publicar poderia vir a ser uma forma de organizar pensamentos, idéias e sentimentos.
Mas o diálogo que se dá aqui é sobretudo interno e não uma idéia pronta para ser anunciada. É, antes, algo em andamento e construção, e neste caso novamente fujo às exigências literárias, já que a principal descrição para escritor que encontrei é: autor de obras. Acontece que o que escrevo fica sempre inacabado... e talvez por isso também seja sempre angustiante.
Houve produções sim, mas num outro plano. E descobertas!

A exemplo disso, me ocorreu hoje um fato interessante. Já comentei aqui que o filme 'Mágico de Oz' tem um significado especial na minha história. E como se não bastassem os tornados invadindo meus sonhos, minhas manias com sapatos e pés, as idas e vindas que me apontam uma verdadeira jornada a ser percorrida dentro de mim, e os tantos outros símbolos deste filme que me fazem tanto sentido, me dei conta hoje da semelhança entre
Toto (o cachorrinho da Dorothy no filme) e o Zeca, meu novo cãozinho. Segue a história:

Quando meu marido e eu decidimos ter um cachorro, a intenção era adotar uma fêmea. O nome há muito tempo já havia sido decidido: Dorothy, e assim que soubemos que uma ninhada estava pronta fomos lá escolhê-la. Foi então que um sapequinha minúsculo nos escolheu primeiro: um machinho, uma bolinha de pelo que pulava na gente sem parar, lambia os nossos dedos do pé e era a coisa mais fofa. Depois dessa recepção não foi preciso pensar muito pra decidir quem levaríamos.

O Zeca chegou tem quase 1 mês, mas só hoje me dei conta da semelhança com o Toto. Talvez seja exagero meu, mas duvido. A raça nem é a mesma e a semelhança ainda é grande ao meu ver.

Não há nada demais nisso mas a cada dia descubro uma nova “coincidência”, um novo detalhe do filme me influenciando.
Acabei me lembrando também de quando era criança e inventava umas musiquinhas muito sem ritmo que incluíam um cachorrinho que chamava Toto... Nelas eu rimava ‘revólver’ com ‘cadeia’ e ‘Toto’ com "garda-rôpa". Vai entender...

E o que isso tem a ver com o aniversário do blog? Tudo! É por estes “detalhes” tão gostosos (e as vezes sofridos) de serem descobertos (ou paridos) sobre a gente mesmo, e que só vêm à tona quando se põe a investigá-los através da narrativa, que vale a pena continuar a escrever, a buscar e a me encher de coragem para fazer as perguntas certas.



Por Sophia Compeagá



Aproveitando a ocasião quero agradecer as visitas que recebo! Vocês sempre serão muito bem-vindos por aqui, assim como qualquer crítica ou comentário que possam ser sementes ou frutos de qualquer insight! Beijos à todos!

10 fevereiro 2009

Metalinguagem


De uns tempos pra cá, passei a me preocupar muito com a origem de tudo que eu leio, quem é o autor, sua formação, motivos que o levaram a escrever sobre o assunto... Claro que nem sempre consigo me informar sobre tudo isso, mas entender a história da criação da obra é tão importante quanto propriamente lê-la.

Tive um professor que sempre nos dizia para que selecionássemos muito bem aquilo que líamos, e hoje acredito mesmo nisso... Por mais que tenhamos um olhar severamente crítico sobre tudo, muita coisa passa despercebida e somos influenciados por aquilo que captam nossos olhos.

Muitas vezes começo a escrever (aqui mesmo neste espaço) e raramente sei no que vai dar. Começo com uma idéia vaga, um insight pobre, que vai evoluindo e terminando numa coisa totalmente diferente. Às vezes até duvido de que quem escreva realmente seja eu.

Mas o motivo mesmo de eu estar falando isso é que tenho me impressionado ao notar as coisas que acontecem neste processo. Sinto que escrever é como prever o futuro, envolve uma intuição que o próprio autor desconhece e não tem o menor domínio.

Quando leio coisas passadas (neste caso também envolvem minhas "antiguidades", que não constam aqui) vejo que muitas coisas que eu escrevia falavam de coisas que ainda viriam a acontecer. Textos que pareciam pobres e quase sem sentido, depois de um tempo, ganhavam todo o sentido do mundo e saíam do papel flutuando, vindo pousar sobre minha história real.

Minha vida sempre esteve envolvida em algum tema, e estes às vezes duram anos. E é preciso explorá-los muito, falar deles, questionar e escrever para que se dissolvam, e outro tema venha ocupar meus dias.

É interessante notar que estes temas se sobrepõem, como se um fosse complemento do outro. E mais interessante ainda é ver que não são só pensamentos, mas fatos, pessoas, leituras, que surgem do nada, trazendo algo desta mesma natureza para que eu possa experienciar... contracenar tornando-me a protagonista de um filme perfeito, com começo, meio e fim.

Justificando novamente, escrevo isso porque acho que acabo de encerrar um ciclo, que me proporcionou intensas experiências e grandes aprendizados, assim como noites insones, duros questionamentos e dolorosas constatações.

Se não fosse pelo meu prazer em ouvir pessoas, em solucionar problemas, em entender as coisas e sobretudo minha capacidade de empatia, eu desconfiaria de que fiz Psicologia para me auto-analisar porque estou o tempo todo questionando meus atos, palavras e sentimentos. Se isso é legal ou não já não sei dizer, talvez leve para a próxima sessão de terapia... Mas que faz minha vida mais interessante, isso faz!

Por Sophia Compeagá



"Na minha cabeça é assim:
pensamentos enfileirados
por ordem de tamanho,
obedientes e organizados,
cada um esperando sua vez.
Enquanto o da frente não avança,
os de trás não se adiantam.
Mas há dias em que saltam para fora
de mãos dadas, juntos, muitos,
de uma só vez.
- Com cautela pequeninos! Demais assim é suicídio!
A razão só nasce bem por conta gotas!"

09 fevereiro 2009

se desejas escrever sobre humanos...


“Meu jovem, se desejas escrever sobre seres humanos,

a melhor coisa é ter um casal de gatos.”

( Aldous Huxley )

08 fevereiro 2009

"Rótulos são para geléias"


Algumas verdades são duras de se aceitar, e, mesmo consciente delas, demora-se um pouco para permitir que elas façam parte da gente, sejam digeridas, interiorizadas. Para a maioria das pessoas nunca é!


Recentes leituras e experiências me fizeram rever muito de meus conceitos e valores sobre mim mesma e tudo a minha volta, e, chegar a algumas conclusões sobre o sentido da vida (que, passei a crer, é não ter sentido mesmo).
Não quero ser hipócrita, ainda não internalizei muito destas coisas, mas eis algumas das, simples mas indigestas, afirmações de que falo:

Você não vai mudar o mundo! Você não é mais importante ou especial que o resto das pessoas. Você é mais um!
Você pode fazer o que você quiser! Pode ir atrás de seus sonhos, realizar seus desejos. Ninguém define sua vida, seus valores... a não ser que você permita!
Você tem o direito de ser respeitado e pode brigar por isso!
VOCÊ É LIVRE!

Entrar em contato com nossos verdadeiros desejos impõe-nos a responsabilidade por nossos próprios atos e experiências. Mas na maioria das vezes nos vemos tentando colocar a culpa de nossos fracassos e dores em alguém ou alguma coisa fora de nós.

Sigo vendo as pessoas se consolarem ou estimularem umas às outras com alguns adjetivos contraditórios: "você é insubstituível", "você é especial" ... Como se fosse mesmo trazer algum benefício.

Para mim, nos sentirmos insubstituíveis só nos faz tentar nos manter no mesmo padrão. Nos implica numa obrigatoriedade, num dever, numa imagem fixa de si mesmo, num sintoma.

O que eu preciso é me livrar dos rótulos "positivos" assim como me livrei dos negativos.

Depois de um tempo adquirimos maturidade para questionar se o que foi aprendido durante a vida é realmente a nossa opção. É chegada a hora das grandes escolhas... e talvez seja preciso fazer algumas mudanças.

Toda mudança é complicada e sofrida, mas mudar permite refazer sua história à sua maneira.
Já dizia Lacan "na recusa nasce o sujeito".

E ao final você saberá que viveu uma vida de verdade.
Por Sophia Compeagá




"Cuidado com os seus pensamentos, eles se transformam em palavras.
Cuidado com suas palavras, elas se transformam em ações.
Cuidado com suas ações, elas se transformam em hábitos.
Cuidado com seus hábitos, eles moldam seu caráter.
Cuidado com o seu caráter, ele controla seu destino"

04 fevereiro 2009

Nuance




Ando querendo escrever algo alegre, querendo registrar as marcas coloridas das últimas vivências, mas não consigo.
Alegria é combustível para pés, porque na alegria há música e dança. O que movem minhas mãos são mesmo melancolia e confusão. Na maioria das vezes é por eles que me ponho a escrever, dedilhando teclados, decifrando dores e dúvidas.
Enquanto a tristeza questiona, a alegria não vê necessidade de entendimento. A alegria não precisa ser traduzida, tem poucas letras, é isenta de mistérios, não tem segredos.
Alegria é porta aberta, coração escancarado, sorriso largo. É cor, é imagem, enquanto a tristeza é palavra, é linguagem.
Alegria é ventre, é entrega, é liberdade. É estar, é presente! Tristeza é passado e futuro, ausentes...
A alegria É, a tristeza processa.
Alegria é excesso, tristeza é falta...
E eu me pergunto: O que seria de uma sem a outra?
Mas não quero questionar... a alegria está em mim, pura e leve, e não sei até quando. Por enquanto vou ouvir esta música desprovida de letra.
E talvez amanhã quando acordar eu possa falar dessa mágica sensação de não saber, e quase nem ser.


Por Sophia Compeagá





09 janeiro 2009

Do direito ao grito


Algumas pessoas não aceitam a felicidade, ainda que passageira. Rejeitam qualquer alegria não porque suas tristezas sejam maiores, mas porque não se sentem dignas. Preferem adotar a postura de vítima que acaba por mantê-las na dor e que, embora seja estranho, parece mais confortável do que lutar pelos próprios desejos e realmente viver.
Foi assim que aprenderam a ser, e cresceram acreditando que é isso que merecem, ou que esta é a única oportunidade que lhes cabe. Fecham os olhos para os tantos estímulos do mundo à sua volta. Morrem lentamente.
Narcisistas. Suas histórias são as MAIS dramáticas, suas vidas as MAIS sofridas.
Não se sentem amadas e por consequência não amam a si mesmas, se culpam e se punem.
Eu gostaria de saber... é possível mostrar a elas que há sim o direito à vida, ao amor, à realização dos desejos, dos sonhos? Que há a chance de construir e viver uma vida à sua maneira, que falar alto e dar gargalhadas é permitido!?
E ainda... que se tornando assim, espontâneas e verdadeiras haverá ainda mais (muito mais) chance de serem aceitas e amadas, mas que, ao mesmo tempo, não é isso que deve realmente importar?
No fundo, se colocar nesta posição desfavorável também é uma forma de se sentir especial, e de ser notado, ainda que a partir da pena do outro.



Por Sophia Compeagá
"porque há o direito ao grito, então eu grito!"

23 dezembro 2008

Crisálida

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos
que nos levam sempre aos mesmos lugares...
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos."

(Fernando Pessoa)
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É incrível como as mudanças acontecem...
Às vezes me sinto descrente delas, mas quando olho para trás vejo o quanto minha história é um tanto emocionante, cheia de mudanças e andanças.
E a gente se transforma mesmo... começa por uma pequena decisão que vai devagar crescendo e dando nova forma à maneira de viver, de ver as coisas e acaba por mudar completamente nosso destino e nossa pessoa.
Ainda bem que houveram mudanças, ainda bem que tenho essa força dentro de mim que me faz romper com meus próprios limites e medos, e crescer.
Por sorte minhas mudanças só me fizeram evoluir, porque sei que nem sempre é assim.
Mas há um momento em que a alma se aquieta, e pede sossego. Talvez porque descobre o que realmente deseja e vê que não é preciso ir tão longe para alcançar. E foca!
Ou talvez porque tenha se deparado com a mudança mais necessária, aquela que vai realmente desnudar a pessoa que se é e dar sentido a todas as mudanças anteriores, toda a história... Ou banalizar toda ela, não se sabe! E esta incerteza é mesmo paralisante...
Talvez esta paralisia, que se disfarça sob um desejo de quietude, seja covardia. Ou talvez seja somente uma exigência da alma para que a decisão da travessia seja o mais consciente possível.
Talvez...

Por Sophia Compeagá

16 dezembro 2008

do que me escapa...


Não sei fingir emoções, não sei esconder o que sinto,
não sei falar do que não me toca,
não sei NÃO falar do que me toca...
Sou toda histérica, tenho um corpo que fala por mim.
Não sei me fazer de forte, não sei estancar ferida.
Minha carne grita, minha dor vaza, meu olhar implora.
Me esparramo pelos olhos, impossível não me ler.
Mas tem sempre um ponto onde me escapo,
alguma coisa de ilegível e inalcançável,
estranho e misterioso que me faz desconfiar
de que seja justamente neste estranho encontro
com o desconhecido de mim
que eu surja de verdade.


Por Sophia Compeagá

02 dezembro 2008

dos caminhos que nos trazem a nós...


Há pouco tempo fiz uma grande descoberta sobre parte da minha história. Foi um dos maiores insights que já tive, mas ainda não entendi por completo sua influência na minha vida porque a cada dia descubro um detalhe novo.
Não quero criar muitas expectativas porque certamente este valor todo a que atribuo à descoberta cabe somente a mim!

Sempre tive um verdadeiro encanto por tornados. Sim, estes funis de vento que giram, destróem tudo por onde passam deixando claro que ninguém pode com a força da natureza. Gostaria de me lembrar neste momento qual o psicanalista que afirmou que SE TENS UM MEDO, EIS AÍ SEU DESEJO ou coisa assim... (quando me lembrar, reedito a postagem). Enfim... este encanto, admiração, medo (sei lá como nomear isto) sempre esteve presente em mim... Quando mais nova pesquisava sobre o efeito e as causas dos fortes ventos, assistia a vídeos, buscava por fotos... já nem sei mais quantas vezes assisti ao filme Twister.
E sempre me foi assim mesmo, um medo misturado com uma admiração tremenda!
Foi então que, assistindo a um vídeo do Youtube, encontrei uma cena do filme O Mágico de Oz que já havia assistido quando muito pequena mas não lembrava mais. A cena mostrava a parte em que um tornado invadia a vila e Dorothy era sugada junto com a casa em que estava, ficando suspensos e girando dentro do funil gigante.
Na hora me veio o insight! Quando muito criança assisti a este filme e me lembro de ter me causado grande medo... mas também (suponho) grande interesse já que a cena do tornado acontece no início e me lembro de detalhes que acontecem no meio e no final do filme como por exemplo dos sapatos mágicos de Dorothy que (ao final descobre-se) lhe davam o poder de voltar para casa.
Mais um insight (e um sintoma) sou fanática por pés e sapatos!

Embora este seja um filme infantil, a mensagem que tiramos aponta um conteúdo muito maduro. Três fortes personagens, além de Dorothy, contribuem para as lições da história: o espantalho que desejava ter um cérebro, mas que era inteligente e conseguia dar grandes soluções que salvavam os personagens; o homem de lata que desejava ter um coração, mas era o mais sensível de todos; e o leão que desejava coragem mas que na verdade não conseguia lidar com a coragem que já possuía, e confundia covardia com prudência.
Dorothy por sua vez tinha o desejo de voltar para casa, e junto de seus três amigos passam todo o filme em busca do mágico que lhes realizaria os pedidos.
Juntos, os quatro ilustram a dinâmica humana e os centros de força que mobilizam as pessoas. Pensamento (cérebro), sentimento (coração) e instinto (coragem) são 3 instâncias que, em equilíbrio, permitem a harmonia do corpo na dinâmica do viver. Mas há uma quarta instância tão presente quanto as outras: a tão humana e eterna vontade de voltar pra casa.

Desde o ventre de nossas mães cumprimos o destino de romper barreiras e crescer. E ainda que seja um destino humano e independente da vontade, crescer é um desafio... há que se confrontar com a própria vida e consigo mesmo.
Há em nós, acredito, um impulso de voar, mas também um forte impulso de ficar no ninho. E essas duas pulsões se conflitam continuamente.
A sucessão de enfrentamentos vai depender do contexto e da história de cada um, mas há situações que são bem comuns a todos nós. São elas: o próprio parto, a entrada na escola, nascimento de irmãos, as crises da adolescência, as responsabilidades da vida adulta, o trabalho, os rompimentos, os lutos pelos entes queridos, as enfermidades, a entrada na faculdade, promoções, mudanças, a velhice, etc...
Considero enfrentamento toda situação que altera o funcionamento normal da pessoa e que a faz sair desta fase diferente de antes (seja para melhor ou pior). É um caminho desconhecido, imposto pela vida (ou que nos impomos a nós mesmos) em que precisamos percorrer para que o equilíbrio anterior seja retomado.
Estes enfrentamentos nos exigem um sincero encontro consigo mesmo, pois nos põe em contato com o limite de nossas forças e muitas vezes nos obrigam a ir além.
É interessante notar que, embora pareça que a necessidade de enfrentamento se dê à partir da pulsão que nos põe adiante (que nos põe a voar), ela também se dá devido à necessidade de retornar ao ninho, de retomar o equilíbrio, de voltar para casa.
Muitas vezes o caminho do enfrentamento é longo e árduo e ao final descobre-se que a resolução do problema, o Santo Graal, estava mesmo lá atrás, na linha de partida. Talvez já na bagagem do peregrino antes deste iniciar sua jornada em procura de sabedoria. Mas era preciso correr todo o percurso para adquirir a capacidade de percebê-lo. Foi assim com O Alquimista, é assim com todos nós.
No fundo essa eterna vontade de ir pra casa é a voz do nosso desejo se fazendo ouvir.
As duas pulsões, apesar dos conflitos, estão indicando o mesmo caminho, o da descoberta de si mesmo através das experiências.
Tavez o Mágico de Oz seja meu grande conto de fadas! Certamente haverá muito mais ainda por descobrir da aventura de Dorothy... e de mim.


Por Sophia Compeagá

30 novembro 2008

do que me surge...


Quando escrevo, surge em mim
uma fala solta, autônoma, independente,
como se nem fosse minha.
Que fala à partir de mim
sobre coisas que nem eu sei,
e que muitas vezes nem quero saber.
São impotências, dores que não posso suportar
e coisas nas quais não quero pensar.
E acabo por falar do que me surge
mas que não entendo.
Quando escrevo,
meus dedos sabem mais de mim que eu mesma.
E emprestando minha dor,
me devolvem a tradução da minha angústia,
em palavras.
São frases, idéias e dúvidas
tomando vida e dando sentido
à confusos sentimentos.
Ao escrever vou me criando,
me descobrindo, me inventando.
Nada me surpreende mais
que minha própria capacidade de surpreender.



Por Sophia Compeagá

23 novembro 2008

da finitude...


Quis escrever um novo post sobre o mesmo assunto que o anterior, mas desta vez com minhas próprias palavras porque este é um tema que, de algum tempo pra cá, tem me intrigado muito.

A vida tem me empurrado para conclusões estranhas sobre ela mesma. Tenho me surpreendido muito com as contradições a que se submetem nossas idéias para alcançar algum amadurecimento.
Tantas vezes temos que rever conceitos, desdizer ditos, mudar pontos de vista… é como se o aprendizado exigisse que experimentássemos vários pontos de vista na ânsia de encontrar uma verdade absoluta, mas no final descobríssemos que a verdade é a soma de todas as coisas.
Isso é arriscado porque tendemos a não nos envolver com afirmações e a duvidar de tudo.

E o tema do post anterior, eternidade, mexe mesmo comigo me fazendo rever antigos conceitos sobre vida e morte e sobre o valor das coisas.
Concordo com Clarice quando associa a eternidade com o sabor do chiclete que se acaba. Clarice sempre questiona, indiretamente, o que é realmente felicidade.
E no meu ver, todas estas coisas estão interligadas.

Acredito mesmo que a finitude das coisas é o que verdadeiramente lhes atribue valor. E a felicidade é um estado passageiro.
Somos incompletos, insatisfeitos e dinâmicos, e é esta insatisfação que nos mobiliza.

A vida é essa montanha russa, que ora nos coloca lá em cima gozando da maior felicidade, e ora nos põe pra baixo e nos faz querer desesperadamente subir novamente, e para isso, empreender esforços, produzir, mobilizar-nos, até que novamente se alcance o topo...
Clarice se pergunta "... queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?"

Nossa maior constatação de incompletude é o próprio amor. Ama-se justamente porque é impossível ser feliz por si só. Amar é buscar no outro a resposta da própria angústia.
E um bom relacionamento é aquele desobrigado. Onde não haja garantias de eternidade ou felicidade. E isto é tão verdade que tiveram que inventar dois juramentos para uniões religiosas "na alegria e na tristeza" e "até que a morte nos separe".

Sei que estou misturando as coisas, mas é que para mim elas estão juntas realmente.
Eternidade, assim como felicidade absoluta seriam a maior desgraça dos seres humanos, por mais estranho que isso possa parecer. Viver não teria o menor sentido.
É a finitude das coisas que lhes empresta "eternidade" e valor.
A maior dificuldade está em conseguir enxergar neste vazio a própria plenitude.

Em
"da eternidade das coisas findas" , uma postagem antiga, tentei expressar algumas idéias sobre o papel da morte como fundamental para o sentido da vida. Nela quis ressaltar o tempo como resultado da própria finitude dizendo que esta nos coloca diante de um futuro incerto e valioso. Também citei a ausência (morte) como constituinte da própria vida, já que penso que parte da personalidade se cria na tentativa de nos eternizarmos através de nossos feitos. E ao fim, incluí uma frase que, pra mim faz todo sentido neste (con)texto: "Eternos são aqueles que se sabem mortais!"

De lá pra cá me questionei algumas vezes sobre até que ponto essas afirmações eram mesmo válidas para mim. E de tanto pensar à respeito, percebi que minha própria vida estava sendo afetada por estas reflexões.
Tornar-se totalmente consciente da própria finitude é praticamente impossível. Freud já dizia que o inconsciente não "admite" o próprio fim. Mas, me aproximar destas questões me fizeram, aos poucos, rever minhas prioridades, valorizar minha vida e as pessoas que fazem parte dela, assim como desfazer-me de coisas que não me traziam nenhum benefício.
Não, não estou dizendo que resolvi todos os meus problemas. Mas ainda que fosse dolorido pensar nestas coisas, sem perceber, trouxe mais VIDA para minha vida.


"É quando ela, a mais carente de sentido,
dá sentido a todas as coisas.
A mais carente de vida,
dá vida a todas as coisas.
Afinal, não é preciso morrer
para nascer-se de novo."




por Sophia Compeagá



19 novembro 2008

da eternidade...

De Clarice Lispector

"Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."

31 outubro 2008

do discurso...


Definitivamente, falo pelos cotovelos. Falo sozinha, falo com minhas plantas, puxo conversa com estranhos, falo sem pensar, falo pensando, penso falando.
Tenho dificuldades para conceber um raciocínio mudo.
Também adoro ouvir, aprecio sotaques, reconheço aptidões musicais, ADORO ouvir histórias. Reais ou não. Talvez eu seja mesmo muito "auditiva".
Da mesma forma, as coisas mais irritantes pra mim são as que me chegam pelo som, pela voz, ruídos que tiram o sono, palavras cortantes, músicas ruins...
Falar, pra mim, assim como escrever (e, sim, eu escrevo e leio imaginando vozes) é uma forma de me organizar, me expressar, me construir juntando os fragmentos dos pensamentos que flutuam no meu mundinho aqui dentro.
Nesse sentido, falar é descobrir, desvendar, conhecer... a mim, o mundo, as pessoas.
Acho que falo perguntando.
Inclusive acho que passo a imagem de uma certa insegurança, porque raramente duvido ou discordo das pessoas e dificilmente afirmo uma coisa com ares de certeza. E se digo alguma coisa num tom de muita imposição, logo desconfio de mim mesma.
Não que não tenha meu próprio modo de pensar, ou que mude-o de acordo com o que ouço por aí. Mas acredito e respeito a lógica interna das pessoas. Assim como sou muito grata à quem me critica.
Porque aí está uma das coisas que menos aprecio nas pessoas: a mania de querer impor seu modo de pensar aos outros, seja por prazer ou por necessidade. O mais (ou menos) interessante é que, normalmente, estas pessoas discordam de tudo. Até de quem concorda com elas, porque não param para ouvir a opinião do outro. Falam sozinhas, mas não falam para elas mesmas. Falam somente para (se) afirmar.
Quando disse que desconfiava de mim mesma ao passar perto de ter uma atitude destas, é porque acredito que, afirmar demais uma coisa, é uma forma de apontar o quão frágil me coloco diante daquela questão. Do quanto aquilo me incomoda, e da INcerteza destas afirmações.
O nível de agressividade expressado é equivalente ao grau de ameaça a que se acredita estar submetido.
Pessoas assim têm dois destinos, ou ficam sozinhas - porque não constroem relações de crescimento, aceitação e troca - ou ficam rodeados de gente insegura que mal entendem do que falam, mas lhe dão ouvidos.
Minto, gente assim também atrai gente semelhante... Posso imaginar (ouvindo as vozes, claro) como seria um diálogo desse tipo. Dois monólogos completamente desencontrados, assuntos de naturezas diferentes, como se falassem de política e jardinagem ao mesmo tempo. Ruídos...
Gente assim eu descarto. Mas aprendo com elas.
Acho que acabo de criar minha teoria das grandes discussões. Não acredito em discussões, não gosto de me envolver em grandes debates... a não ser como ouvinte, claro! Porque é impossível chegar a grandes conclusões tendo que mudar de posição sem repetir e repassar a idéia por algumas vezes na cabeça. E isto não acontece num único dia. Envolve descontruir e reconstruir idéias.
E nossas convicções são importantes para nós. Não parece, mas SIM, eu penso desta forma! Só não aceito tomar posse de uma idéia que no final vai tomar posse de mim.
Por isso admito que, embora esteja aqui justamente criticando, eu mesma muitas vezes defendi idéias com unhas e dentes, quase que literalmente. Mas depois de um tempo percebi que estava deixando de ser eu, com minha inteligência e capacidade crítica, para adotar uma idéia pronta sem a chance – ou pior, a permissão - de questioná-la ou contrui-la a meu modo.
Hoje procuro ouvir, não só o que as pessoas dizem mas também aquilo que não dizem (não estou falando de analisar e interpretar... coisa de psicólogo, credo! rsrs). Falo de ouvir a emoção que a pessoa traz através do que fala, e, sobretudo, de respeitar seu modo de expressar e pensar.
Porque há uma lógica em cada discurso e uma razão pela qual falam.



By Sophia Compeagá
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"Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim"
(Clarice Lispector)

18 outubro 2008

Simplificar-se


Para a psicanálise, quanto mais complexo for o aparelho psíquico, mais condições se terá de enfrentar situações difíceis. Ou seja, quanto mais problemas você vivenciar, sobretudo na infância, mais capacidade você terá de enfrentar novas situações problemáticas na vida adulta.

Não teme o fogo quem desceu ao inferno. Não teme a chuva quem carrega dentro de si a marca de grandes tempestades.

Claro que há casos em que o efeito se dá de outra forma, traumática, quando a pessoa não consegue dar sentido a certas vivências e integrá-las a sua história de vida. E ao invés de promover maturidade, impede a pessoa de evoluir em alguns aspectos.

Mas a vivência de complexidades nos dá recursos para simplificá-las posteriormente. Entender um problema é o primeiro passo para resolvê-lo.

E entender é uma arte que envolve reduzir o problema ao tamanho de nossa cabeça para que ele possa circular por ali sem entraves. Entender é reduzir, e simplificar.

A arte de viver bem se encontra na capacidade de simplificarmos as coisas, a vida e a nós mesmos.

A maior das dificuldades está no excesso de valor que damos à tudo. Quanto maior o desamparo, maior a carência e a necessidade de se apegar às coisas.

Não parece contraditório? Quanto mais valor damos a nós mesmos, maior nosso desamparo. E vice-versa. Enquanto vemos pregar por aí que é preciso dar mais valor a si mesmo, que cada pessoa é insubstituível, e fazendo parecer que, se nos dermos mais valor, seremos mais felizes. Eu confesso, também me confundo nesses discursos...

Pra mim, ser feliz é ter menos necessidades. E dizer que todas as pessoas são especiais é uma outra forma de dizer que ninguém é.

Para ser inteiro, seja vazio! Nossas necessidades verdadeiras estão nas coisas simples e não nas grandes complicações que embaraçam nossas vidas.

E é somente acalmando as grandes tormentas do nosso coração que poderemos ouvir claramente a voz do nosso desejo.

Pra mim, "amar a si" é ter bem definido o que se ama "fora de si". É aprender a desfazer-se das pequenas paixões e vícios que nos tiram o foco do desejo maior. É jogar fora pequenas bagagens em função de uma grande conquista. É ter coragem de ouvir a voz do próprio coração e seguir os valores que ditam a nossa consciência. É esvaziar-se de egoísmo e encher-se de vida. É abrir-se para o novo. É simplificar-se!


Sophia Compeagá

14 outubro 2008

O Vazio




"A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade..."


(Rubem Alves)

02 outubro 2008

E viveram felizes para sempre...

...porque nossos momentos
são tão incríveis e intensos
que cada segundo é eterno
mesmo que acabe!
E, já que nada é certo,
fico com a única certeza
que me resta: o que sinto:
Amor!
.


25 setembro 2008

Ausência


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim".


(Carlos Drummond de Andrade)

21 setembro 2008

sobre o envelhecer...

O envelhecer não acontece de uma hora para outra, nem mesmo depois de muitos anos de vida. Envelhecemos diariamente desde o dia em que fomos concebidos. Envelhecer, amadurecer e crescer nos possibilitou sermos o que somos hoje e nos oferece, todos os dias, oportunidades de aprendizagens, conhecimentos e experiências.
Ser idoso é ter soma de vida, é ter desenvolvido paciência, sabedoria e humildade, ou não! Mas fazer parte da sociedade da forma mais digna possível.
As estatísticas nos surpreendem a cada ano quando apontam o grande crescimento da população idosa em todo o mundo e principalmente em nosso país. E isso nos faz pensar na nossa propria velhice.
Não caberia a nós, então, repensar o lugar do idoso hoje na sociedade e na nossa vida em particular para que quando for a nossa vez possamos gozar da dignidade de uma vida ativa, respeitada, onde se possa desfrutar de tudo que conquistamos durante os anos vividos, usando das ferramentas já citadas (experiências e sabedoria acumuladas) para também ter espaço e a chance de contribuir com um mundo melhor à nossa maneira?
Sophia Compeagá
.
"A cada dia que vivo,
mais me convenço de que
o desperdício da vida está
no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta
que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade"
.
(Carlos Drummond de Andrade)

15 setembro 2008

alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no meio do caminho...

E foi então ela se rendendo
pouco a pouco aos costumes locais,
se misturando ao que via,
se perdendo,
desfazendo-se...
até que um olhar familiar se lhe apresentou!
E lhe acolheu,
num carinho sincero,
do qual realmente estava habituada
- mas havia esquecido.
E seu coração se lembrou
de quem verdadeiramente era.
Estava salva!

Sophia Compeagá
.

♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.(...) Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, sem sequer precisar me procurar".
(Clarice Lispector)

07 setembro 2008

do amor e de todas as coisas...

Fui apresentada a um blog
esta semana em que todas as postagens se referiam ao amor.
Encantada com os textos, primeiramente me perguntei como alguém conseguia falar de um só assunto tantas vezes...
E foi então que percebi: todo ser que fala, fala sempre de amor. Porque é por amar que se fala! E foi o Amor Primeiro que possibilitou todas as coisas.
O amor é a raiz de todos os sentimentos. Há amor inclusive no ódio... principalmente no ódio! Contrário ao amor é a indiferença, a ausência de sentimentos.
Todos os sentimentos e ações remetem ao amor, partem do amor e se mantém pelo amor.
Amar é a única razão pela qual se vive. Quando o amor acaba deixa-se de viver por um tempo até que o coração parte denovo em busca de aventura.
Amar é viver, é esta entrega sem certeza de retorno. É saber que a vida é finita e por isso mergulhar de cabeça nos próprios sonhos. E aproveitar a festa. Antes que a música acabe. E a banda pare de tocar.
Lindas palavras as que se referiam ao amor. Mais sábias são as palavras que vêm do coração. Verdades inquestionáveis.
Amar é reconhecer-se incompleto, escrever é fazer-se infinito.

Sophia Compeagá




27 agosto 2008

Nasce mais alto!



"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para
estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver"
(Amyr Klink)

23 agosto 2008

Tristeza doce

Na alma de todo artista deve morar uma tristeza doce e
uma saudade de não se sabe o que, ou quem (ou se sabe...).
Uma tristeza mansa que às vezes vira angústia intensa,
mas que normalmente é lilás e de águas tranquilas.
Por vezes me sinto atingida por este sentimento
que me acomete normalmente em momentos desacompanhados,
mas nem por isso solitários.
Tristeza doce parece ser a falta daquilo que logo vem,
ou talvez daquilo que já se foi.
Lembrança ou esperança que se traduz num sentimento de gratidão.
Permitir-se inundar de tristeza doce é apropriar-se
da condição de solitário e incompleto mas não fechar os olhos
para o mundo e a vida em suas infinitas possibilidades!
Ao contrário, nestes raros momentos contactamos nossa essência e
nos sentimos parte de Tudo. Plenos!


Sophia Compeagá
εϊз...

30 julho 2008

25th...


É do processo natural das coisas: aprende-se a viver vivendo! E, à medida em que os anos passam, novas lições nos são apresentadas, muitas delas vindo de encontro com os nossos primeiros valores e impressões!

À medida em que minha vida foi passando, passei a me esforçar menos para agradar as pessoas à minha volta e fui percebendo que desta forma elas gostavam mais de mim.
E, apesar de saber que nem sempre o que vem de dentro é bom e adequado, me tornei uma pessoa mais espontânea! E é disso mesmo que as pessoas gostam: espontaneidade tem sabor de verdade!
Hoje ressinto-me menos, porque passei a expressar meus sentimentos na hora certa e para a pessoa certa! Mesmo que ela não saiba! Isto me evitou muitas outras brigas desnecessárias com pessoas não merecedoras do meu mau humor venenoso, principalmente eu mesma!
Dizendo essas coisas faço parecer que fui uma pessoa que guardava muitas mágoas, e que era infeliz! Não! Mas quem é que não passa por essas coisinhas e se vê chateado por uma palavra torta, pela omissão de um cumprimento, ou por coisas que nem se sabe o quê!?

Na verdade, de todas, minha principal lição foi perceber que sempre terei coisas a aprender! E que a verdade estará sempre mudando! E que quanto mais aberta eu for para aceitar isto e aprender as novas lições, mais viva me sentirei e menos sofrerei!

Também aprendi que as pessoas se vão, e só neste momento você saberá o real valor delas! Algumas, as que você achava que sentiria a maior falta, se descobrem sem o menor valor, e outras, talvez aquelas que de tão presentes em nossas vidas nos permitem nos acomodar com sua presença a ponto de esquecermos sua importância, poderão fazer uma falta enorrrrme!!!
Aprendi que tempo não significa muito... Algumas pessoas chegam, apaixonam seu coração e em pouco tempo você sabe, com uma certeza quase mágica, que esta pessoa veio para ficar!

Aprendi que família é a coisa mais louca deste mundo! E que nunca se é totalmente capaz de julgar a sua, assim como não é possível observar um objeto muito perto dos olhos, você está tão dentro dela que não pode entendê-la. E o melhor caminho para isso tudo é o amor! E, se preciso, um psicólogo que não faça parte do grupo!

Aprendi que algumas pessoas são viciantes e deixam marcas para o resto da vida, e que outras são esquecidas ao virar a primeira esquina... mas que pessoas são a melhor invenção, a melhor companhia, a melhor escola!

E os amigos, estes são bênçãos divinas, e vêm de graça! Com eles você não têm laços consanguíneos, não precisa assinar nenhum papel e por isto mesmo eles se tornam tão especiais! Porque qualquer laço criado é sinal de afinidade espontânea, de sentimento puro, e isso faz de nós seres humanos de verdade, capazes de aceitação e entrega!

Aprendi que fé independe de religião! Já passei por várias, mas é justamente hoje, quando estou fora de qualquer uma delas, onde encontro mais fé! É... talvez eu realmente tenha um olhar diferente sobre o que é ter fé. Mas sou muito mais feliz hoje na minha espiritualidade! Claro que existem outros caminhos espirituais válidos, e defendo todos eles, desde que sejam da vontade da própria pessoa. Mas para mim, foi preciso ser assim!

Gostaria de poder falar da minha profissão, do quanto ela dá sentido à minha vida, mas ainda não a tenho... Sim, estou em vias de tê-la, e por isso só posso dizer que a Psicologia me salvou muitas vezes (não estou falando do seu conteúdo, poderia ser Biologia, Filosofia, Veterinária...), e, como ouvi um dia: "estudo é um bem que você nunca perde!". É nele onde encontro meu maior prazer e realização!

Aprendi que não posso resolver os problemas dos outros! Que posso indicar caminhos, dar exemplos, que posso fazê-las olhar para si mesmas, mas não posso fazer por elas. E isso é frustrante! Principalmente quando descubro que ajudá-las é uma forma de esquecer que também tenho problemas mal resolvidos! Ai...

Aprendi que tem horas que a tristeza vem, não tem jeito! E você pode negá-la, brigar com ela, disfarçar, se drogar... mas o melhor é encará-la e tentar entendê-la. Quando ela der seu recado e cumprir sua missão, irá embora, naturalmente... porque é isso que ela é: parte da sua natureza!

E aprendi que às vezes é preciso abandonar coisas em função de outras, ou em função de nada mesmo! Que perder nem sempre significa perder! E que é preciso ter sempre fé no processo da vida e em si mesmo!

Para finalizar queria compartilhar uma frase do Caetano Veloso que muito me fez refletir nos últimos tempos: "Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minhas risadas". Porque deixar de ser vítima da própria vida e da própria história é essencial para o amadurecimento! E aprendi que é preferível, se necessário, sentir culpa do que se viveu do que perder a oportunidade de fazer a vida acontecer e poder assinar seu nome embaixo!



Sophia Compeagá

εϊз...

15 julho 2008

Pertencer

Por Clarice Lispector
"Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!"

10 julho 2008

dos laços...


Quem disse que relacionamento é coisa que deve durar pra sempre?
As pessoas se vão, de um jeito ou de outro. Algumas se vão antes mesmo de irem de fato!
Estar junto ou separado vai muito além do sacramento, do papel, da lei (que aliás tem percebido a grande complexidade das relações).

Casamento eterno é tratado religioso, que tinha como principal finalidade o acúmulo de bens. Aliás, o casamento passou por uma história interessante ao longo dos anos, sem contar as mudanças que os papéis "marido" e "mulher" sofreram e tem sofrido diante da sociedade.
Sei que com o capitalismo, a contemporaneidade vem marcada por instituições falidas: igreja, estado, família, escola, casamento. Ao contrário do que parece, este texto não vem cooperar com este fenômeno. Não quero apoiar este enorme salto estatístico das separações e divórcios dos últimos anos. Longe de mim MESMO...
Mas sou realista, as coisas nem sempre seguem como desejamos, queremos ou idealizamos.

Casamento não prende ninguém, filho não prende ninguém! "Prende", que termo estranho...
Já dizia a música: "a nossa liberdade é o que nos prende". Pra mim, casamento ideal é este! A liberdade concedida garante que o parceiro esteja com você realmente por opção!

Nem sempre funciona, mas pra mim o importante da relação é a história que a sustenta. A paixão não dura para sempre mesmo, isso é fato comprovado c-i-e-n-t-i-f-i-c-a-m-e-n-t-e! Mas o que eu também acredito e a ciência não diz é que podemos nos reapaixonar... por um gesto, por uma palavra, por alguma novidade vindo da mesma velha pessoa. Há muito ainda por nos apaixonarmos e relacionar-se exige constante criatividade!

Outra coisa que nem sempre funciona, mas pra mim se faz importante, é a, já dita, liberdade! Dar liberdade e espaço para o outro ser ele mesmo é essencial para que a relação seja verdadeiramente uma relação. Quando conhecemos uma pessoa e nos apaixonamos, quer aceitemos ou não, nós nos apaixonamos por aquilo que ACHAMOS que ela é. Antes de conhecermos o objeto de amor, já o temos idealizado, e cabe a nós depois encaixá-lo ao máximo de características possíveis da pessoa real.
O problema é que acreditamos que a pessoa é mesmo aquilo que nossas primeiras impressões apontaram. E tendemos a negar o restante que nos vai sendo apresentado pouco a pouco. E em pouco tempo estaremos acusando os pobres coitados de nos decepcionarem por não serem os mesmos de quando os conhecemos. O amor é mesmo cego...

Relacionar-se de verdade envolve aceitação e entrega. Relacionar-se de verdade proporciona autoconhecimento e evolução da alma.
E quando nos relacionamos de verdade a paixão constante é possível porque o outro será sempre outro, e estará sempre mudando, como nós também.
Mas colocar tudo isso em prática exige muito esforço... que cabe a cada um julgar se vale a pena ou não! Como tudo na vida, e como a própria vida, relacionar-se intensamente oferece perdas e ganhos. O importante é estar consciente de nossas escolhas. E investigar seus reais motivos...
Sophia Compeagá
εϊз...
"Nao precisa ser para sempre, mas precisa ser ate o fim!"
(Rosana Braga)

30 junho 2008

As palavras têm vida



As coisas não existem, as palavras existem!

Palavra é "só" representação, mas a necessidade de haver palavras para nomear as coisas significa que as coisas são inatingíveis por elas mesmas.

E a gente vive é mesmo assim... representando... vivendo e convivendo através de imagens irreais... e sem saber! Ainda bem! Afinal, saber, muitas vezes tira o encanto das coisas...

Mas escrevê-las lhes devolve um encanto especial!
Saber é absorver. Por isso leio, para que as coisas passem a existir dentro de mim.

E eu escrevo mesmo é sobre coisas que não sei. Só sei falar do que não entendo. Porque o que entendo já não importa, o que já entendo não move nada em mim! É o desconhecido que me instiga!

Viver é isso... as coisas nunca estão prontas, nada nos satisfaz plenamente e a gente nunca está maduro o suficiente.

Portanto sou, eu mesma, desconhecida para mim. Porque não sou, constantemente me torno!

E talvez por isso nunca deixe de escrever...

Quando acabarem os mistérios (e, acredite, nunca vão acabar!) eu mudarei de opinião! E passarei a rever o que já sei... Passarei a dar vida ao que já está morto dentro de mim!

Esta é mais uma das ironias da vida que eu tanto aprecio, um contraste fabuloso: fé é dúvida!




Sophia Compeagá


εϊз...