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29 junho 2010

ócios do ofício

estive bastante agitada. comecei um trabalho e saí, comecei a escrever o tcc e desisti, comecei a curtir a nova casa e soube que vamos nos mudar.
de todos, o menos frustrante foi a mudança. talvez porque já esteja acostumada, talvez porque a ficha não tenha caído ainda, pois a mudança será somente no final do ano. muito provavelmente seja mesmo este último!
além disso tem a formatura se aproximando. tudo caminhando pra que também seja no final deste ano! outra ficha que está por cair...
nessa agitação, parece que tenho pensado muito pra fora, sentido pra fora e vivido pra fora. é bom, produzo também, mas falta esse tempo de voltar para o casulo e recuperar as energias.
e não sei escrever sem esse tempo. preciso de um mínimo de ócio para me conectar comigo, e mesmo pra elaborar estas vivências tão externas, trazendo-as pra mais dentro de mim. 
sem isso as fichas não caem mesmo. não há preparo para acolher mais fatos. 
acho necessário contar o vivido. para a gente mesmo. pra poder assentar estas coisas dentro da gente, dar nome e lugar para cada uma delas. e meus últimos vividos tem sido bastante intensos. aliás, pouco me lembro de ter tido algum período de calmaria na vida. nem minha infância se salvou disso.
às vezes escrevo para dar sentido às coisas, às vezes para despi-las de significado. às vezes para encaixar as peças, às vezes pra partir tudo em miúdos, e reconstruí-las do meu jeito depois.
quando conto, brinco com a realidade. com toda a seriedade que isso merece e exige. mas muitas vezes sem me dar conta de que o que eu conto muda o conto no final das contas.

sophia compeagá



"mas é que também não sei dar forma ao que me aconteceu. e sem dar uma forma, nada me existe."
(Clarice Lispector in A paixão segundo G.H)

09 janeiro 2010

Sansões e Dalilas

nunca imaginei que a sensibilidade de um cachorro fosse tão longe...
zeca foi tosado pela primeira vez e voltou todo deprimido do pet, de cabeça baixa e quase sem reação. morri de pena.
realmente ficou muito diferente e temi que ele lesse nos meus olhos o quão estranho ele estava.
a depressão dele durou um dia, assim como a minha tendo que ver ele naquele estado.
sem sucesso tentei animá-lo, brincando e fazendo bagunça, até que desisti, me deitei do lado dele e apagamos juntos...
ele já melhorou e agora está todo serelepe, talvez ainda mais que antes porque está todo leve e sem pelos nos olhos. agora vê tudo com esses olhos arregalados que eu nem sabia que ele tinha. e está mto fofo. inclusive acho que o pelo já cresceu um pouco.
é engraçado porque eu tenho toda uma história com cabelos. minha família toda tem.
hoje todo mundo lá em casa é cabeleireiro, mas antes era só minha avó. o que já era suficiente para minha tortura.
já fui cobaia de vários experimentos bizarros... só eu sei. eu que sofro do terrível azar de ter o cabelo fino que acaba por se render facilmente aos desejos de mãos sádicas no manuseio de tesouras e químicas diversas.
sabe aquela história de a mãe não deixar a filha pintar o cabelo antes dos 15? não aconteceu comigo... quando eu tinha 9, minha mãe e avó fizeram permanente no meu cabelo. dá pra imaginar? já tive o cabelo de várias cores e tamanhos, e os cortes mais bizarros. isso sem contar que quando eu tinha 2 anos e os cachinhos começaram a aparecer (sim porque nasci totalmente careca), meu pai que queria que meu cabelo fosse liso igual ao da minha mãe, ignorando qualquer conhecimento sobre genética, cortou todos os fios na esperança de vê-los nascer novamente lisos. virei um joãozinho. (valeu pai!)
com todo esse estímulo me senti com total autonomia para, aos 13 anos, comprar um alisador químico na farmácia e pedir para passarem no meu cabelo. acontece que eu não sabia que escova também alisava, ainda que provisoriamente, e a cabeleireira então (minha prima) aplicou o alisador e em seguida fez uma super escova no meu cabelo. desconhecendo que o efeito liso perfeito era do secador, tive o dia mais feliz da minha vida achando que aquilo ia durar "para sempre". aliás, as horas mais felizes da minha vida, porque naquele mesmo dia resolvi nadar em uma cachoeira, molhando as lisas madeixas que logo em seguida voltaram ao estado normal, com a diferenciação de estarem ressecadas e quebradiças. que decepção!
enfim, as experiências não foram poucas... e em quantidade e exagero só perco para minha irmã.
mas realmente não imaginei que isso iria se repetir com meu cachorro. até penso que quando tiver uma filha, vou cuidar do cabelo, evitar qualquer atitude extrema e protegê-la dos avós, tios, primos, etc...
definitivamente os cães e outros animais são muito mais sensíveis e inteligentes do que pensamos. há quem traduza isso em termos de 'humanidade'. me adianto em dizer que está longe disso... nada se compara à espontaneidade dos animais em expressar o que lhes desagrada. diferentemente de nós que expressamos nosso lado selvagem de formas tão inadequadas justamente pela tentativa de ignorarmos nossa truculência. somos muito mais animais do que nossos animais são humanos, e quanto antes nos dermos conta da selvageria que nos habita melhor lidaremos com ela. 
sophia compeagá


"A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também".

(Clarice Lispector)

07 outubro 2009

o luxo de meu silêncio



"Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."


Clarice Lispector in 'Água Viva'

01 outubro 2009

(in)quietude

Silenciosa mas inquieta, assim tenho estado. Sem palavras mas com muito o que dizer.
Nunca o silêncio me falou tanto como agora.
Estranho ter que conter para me sentir inteira, consistente. Como se a palavra tivesse peso. Como se precisasse segurá-la para não perdê-la para sempre de mim. Para que eu não me esvaia junto dela escorrendo por entre a fala, sobrando o vazio.
Sempre acreditei no contrário, que para existir precisasse dizer, contradizer e traduzir, por acreditar que 'aquilo que chamo de eu' fosse essencialmente pensamento e linguagem.
De repente me dou conta: tenho um corpo! E descubro nele um mundo de linguagens e símbolos comunicando vida!
E não podia ser diferente, foi através dessa mesma linguagem que o insight se deu.
Tudo faz sentido agora, "no princípio era o verbo" não no sentido de palavra, mas no sentido de ação.


Sophia Compeagá





"Tenho um corpo, e tudo que eu fizer é continuação do meu começo"
(Clarice Lispector)

22 setembro 2009

Desconhecidos íntimos

Amo Clarice, amo a simplicidade com que escreve que como ela mesma diz é uma simplicidade conquistada através de muito trabalho.
Seu jeito de escrever, que ao mesmo tempo questiona a própria linguagem, nos convida a fazer os mesmos questionamentos e aos poucos nos vai introduzindo na leitura como se nós mesmos a tivéssemos produzido.
Às vezes ler Clarice é quase terapêutico. Recorro a ela quando não compreendo algumas coisas, como quando algum intruso e desconhecido sentimento me invade e não consigo compreendê-lo, quando faltam-me os insights.
Existem mistérios que teimam em seguir sendo mistérios. Difícil pra mim que sempre quero resposta pra tudo.
Às vezes a resposta é o próprio silêncio. E frequentemente a resposta é a própria pergunta, sem o ponto de interrogação no final.






"Estou desorganizada {…}
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira que vivo.
{…}Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?”
(Clarice Lispector - 'A Paixão Segundo G.H.')

22 agosto 2009

Quando passei a respeitar o que sentia




Odeio me confundir,
preciso sempre me iludir com a crença
de que entendo o que se passa,
como se fosse possível absorver tudo por inteiro.
Crio teorias, analiso situações,
pessoas, atitudes, falas.
Fantasiosamente controlo todos,
desejando, sem saber, controlar a mim mesma.
Quando passei a respeitar o que sentia,
nada mais importava.
Eu que sempre me importei em ser compreendida
e não suportava ser mal interpretada.
Quando se aprende a respeitar os próprios sentimentos
é mais fácil conduzi-los.
E pensar que era só uma questão de silêncio e entrega...
tão mais simples!




Sophia Compeagá

26 junho 2009

bem concreta e verde...

estou feliz. uma alegria mansa, clara, calma, quase um suspiro.
não uma alegria eufórica, gritante, confusa, advinda das coisas que surpreendem e desorganizam, mesmo em função de um grande acontecimento!
mas sim, estou vivenciando um grande momento. e sinto a alegria de alguém que fez por merecer, de alguém que construiu aos poucos a obra que agora observa ao longe. e reconhece.
buscar reconhecimento demais fora de si, é ter falta de reconhecimento dentro. pois então é chegada minha vez de contemplar...
e estar feliz por saber que o melhor ainda está por vir, e que toda a paciência que cultivei será recompensada.
estou feliz. quieta, cá, no meu canto. mas feliz. (assim, sem exclamações...)



sophia compeagá


p.s.: uma de minhas violetas floresceu esta semana... depois de 1 ano, agora que o sol voltou a nascer na janela da cozinha e bater nelas de manhã. não é uma graça?

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"aqui em casa pousou uma esperança. não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. mas a outra, bem concreta e verde: o inseto"
(clarice lispector em 'felicidae clandestina').

06 maio 2009

Com-tradições

Falei tanto sobre felicidade e infelicidade nos últimos posts mas, noto agora, acabei por não concluir muita coisa. Disse, desdisse e contradisse-me um punhado de vezes, sem fazer-me compreender.
E é assim mesmo, as palavras nunca se esgotam e o desejo de se entender nunca é totalmente satisfeito. Afinal, quem pode tocar palavras?
No final, tudo acaba parecendo uma grande hipocrisia. E talvez seja mesmo. Mas achar todo mundo hipócrita é outra forma de ser.
Eu acho. E sou!
Se hipocrisia for ter em desarmonia o que se diz, pensa e faz, então sou a própria personificação da palavra. Além do mais, todo mundo sabe que quem repete demais as mesmas coisas, ainda não tem claro para si o que quer dizer. Cá estou novamente!
Mas, voltando à questão da felicidade, acho que a dificuldade em defini-la está na necessidade que temos em dicotomizar tudo, separando as palavras sempre em pares de opostos. Só que a vida não é assim, e nos prova todos os dias que os opostos se encontram e se complementam.
O sofrimento faz parte da vida e o ser humano precisa desta tensão que o perpassa continuamente, desta insatisfação que nos leva à algum lugar. O que nos move é o desejo, e o desejo nasce da falta.
Naturalmente este tema mobiliza. Como dizer que a felicidade, universalmente considerada como o horizonte da vida, não existe?
Acho que no final o grande aprendizado da vida consiste em simplificar os problemas, e simplificar-se a si mesmo. O que mais nos faz sofrer é achar que somos especiais demais, diferentes demais, tanto inferior quanto superiormente. Não que eu tenha alcançado este estado de compreensão e desapego dos meus problemas... devo estar bem longe disso. Ainda dou muita importância às minhas dores e conflitos e este blog é a prova viva disso. Mas já me dei conta desta minha desfunção, e este já é um grande passo!

Enfim, só sei falar de mim.
Eis aqui um blog egoísta e hipócrita de um ser humano estranho e confuso com um tremendo desejo de explorar as contradições do viver.






Sophia Compeagá







"- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina.
A professora olhou para Joana.- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
- Ser feliz é para se conseguir o quê?
(Um dia - Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector)

03 abril 2009

Sobre cartas, irmãs e saudades...

Por Clarice Lispector


"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.
Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...
Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

(Carta escrita por Clarice à irmã em 1947 quando em Berna - Suiça se dizia com saudades do Brasil)





Por falar em carta à irmã e saudades, hoje a Leilane faz 20 anos!
Aff... o tempo passa! Ainda guardo viva a lembrança daquele toquinho de gente que descascava a cara das minhas bonecas.
Mas esses traumas a gente nunca esquece mesmo! =D
Querida ir, é muito bom poder contar com sua amizade que, independente do laço familiar, é sincera e incondicional. Amo e admiro sua espontaneidade, sua honestidade (isso tivemos onde aprender), sua franqueza (bota franqueza nisso) e dedicação em tudo que faz e com as pessoas à sua volta. Ser sua amiga é um privilégio, ser sua irmã é uma bênção!

Te amo muito, Nanyka!
Parabéns pelo seu dia!
Morro de saudades...

27 março 2009

Que ninguém se engane...


De todas as coisas do mundo o que realmente importa é o que realmente importa.
Ser a pessoa ideal e ter a vida "perfeita" agrada a todos menos a nós mesmos.
Não interessa se você casou virgem, torce pro mesmo time de futebol desde pequenininho e cursou a faculdade dos sonhos do seu pai se estes valores não forem realmente os seus, ou se nunca ousou questionar-se sobre eles.
O melhor da vida é reconhecer que é impossível agradar a todos, e a partir disso se abrir pro que há de vir. Porque quando se é flexível e espontâneo, se aprende a reconhecer e aproveitar as melhores oportunidades.
Quem vai fundo na vida aprende que o impossível acontece, e que se tivermos fé as coisas podem vir a melhorar. E que fé não é a crença em algo maior fora de nós, mas dentro. É aquilo que não nos deixa desistir de nós, mesmo que a realidade não aponte muitas saídas. É essa força lá no fundo que insiste em insistir.
Sejamos mais que insistentes, sejamos teimosos diante da vida, mas pacientes com nós mesmos.
Sejamos qualquer coisa mas nunca uma coisa só.
Vive bem quem desenvolve a capacidade de recomeçar.
Cada um tem um conceito de felicidade, o meu é que felicidade não existe. Perfeição muito menos.


Sophia Compeagá




"Que ninguém se engane,

só se consegue simplicidade

através de muito trabalho".

(Clarice Lispector)

19 novembro 2008

da eternidade...

De Clarice Lispector

"Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."

15 setembro 2008

alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no meio do caminho...

E foi então ela se rendendo
pouco a pouco aos costumes locais,
se misturando ao que via,
se perdendo,
desfazendo-se...
até que um olhar familiar se lhe apresentou!
E lhe acolheu,
num carinho sincero,
do qual realmente estava habituada
- mas havia esquecido.
E seu coração se lembrou
de quem verdadeiramente era.
Estava salva!

Sophia Compeagá
.

♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.(...) Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, sem sequer precisar me procurar".
(Clarice Lispector)

15 julho 2008

Pertencer

Por Clarice Lispector
"Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!"

10 junho 2008

das desconstruções que nos constroem...

Aprender a desconstruir é de longe a mais difícil de todas as aprendizagens.
Desconstruir compreende desfazer-se, desprender-se, abandonar, abandonar-se talvez.
E é diferente de destruir.
Desconstruir é um processo, exige consciência e vontade, e não é possível a qualquer um - e talvez nem necessário, afinal só desconstrói quem construiu.

Ao longo da vida construímos "verdades"... nos apegamos a idéias, pessoas, valores; formamos laços, adquirimos conhecimento. E estas aquisições definem grande parte do que somos.
Mas há momentos em que aquilo que temos como verdade não é suficiente para dar sentido aos novos acontecimentos e não se integra às novas verdades e aos novos valores. Normalmente estes momentos vêm acompanhados de dor, frustração, confusão e luto.

Algumas pessoas, quando este conflito lhes acomete, tendem à se apegar ainda mais às antigas verdades, declaram-na para si mesmas, impõe-nas aos outros. Natural! Suas verdades são sua base, seu norte, aquilo através dos quais filtram o mundo e se colocam nele. (como já disse, constitui-nos!).
Mas ao fim descobrimos que são eles que nos possibilitam o crescimento e a maturidade. É este movimento de se abrir para o novo que nos dá maior amplitude para compreender a vida e a nós mesmos.
Desconstruir é deixar para trás o que já não faz sentido agora, mas guardar conosco aquilo que de positivo aprendemos.
Uma nova etapa é sempre precedida de outras não menos importantes. Por isso é imprescindível reconhecer que o que vivenciamos numa determinada época era exatamente o que precisávamos para seguir evoluindo, assim a vida foi se revelando aos poucos para nós.

Acolha com carinho sua história e aquilo que outrora fora. Foram eles que possibilitaram ser o que é hoje e o que será amanhã.
Da mesma forma, dê espaço para que é novo (e mesmo estranho), e desconfie daquilo que mais lhe incomoda e ameaça, estes podem já fazer mais parte de você do que se supõe.


Sophia Compeagá

ઇ‍ઉ...



"Justamente sempre acontecia uma pequena coisa que a desviava da torrente principal. Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se já fosse um tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez."
(Clarice Lispector em 'Perto do Coração Selvagem')

27 maio 2008

Meu pecado de pensar

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector

Ѽ ...


04 março 2008

da ausência da presença...


"Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida."

(Clarice Lispector)

21 fevereiro 2008

Traduzir-me

Como eu os admiro, vcs escritores, que com poucas palavras e aparentemente sem muito esforço traduzem sentimentos antes tão confusos de se explicar.
Lê-los me traz companhia, mais que isso... me sinto compreendida. Muitas vezes desconfio que é de mim mesma que falam.
Pura transferência...
Ah, como eu gostaria de poder traduzir-me desta forma! Mas não tenho esta clareza, esta concordância, esta ordem.
Sou toda desordem, sou toda embaraço, sou toda complexa. Faço ganchos e me perco, dou ênfase no que não tem. Psicose pura, loucura total!
Mas que arte não a é?

Por enquanto desisti de escrever...


Sophia Compeagá
εϊз...





"Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo -quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo,
não sei me entregar à desorientação."

Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H.)

27 agosto 2007

Clarice...


"Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa
quando não entendo.
Não entender, do modo como falo,
é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha,
como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso,
é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

04 julho 2007

da sustentação...


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito
que sustenta nosso edifício inteiro."
(Clarice Lispector)