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28 abril 2010

mais uma sobre miopia


sou uma míope que resiste às lentes. prefere andar aos tropeços, não reconhecer as pessoas e se passar por mal-educada, não conseguir ler a tempo os itinerários e perder alguns ônibus à ter de carregar o peso dos óculos sobre o nariz.

queria mesmo era poder diminuir o grau da lente. assim, apenas para sobreviver sem ter que enxergar muito mais do que já vejo.
é estranho enxergar demais... quando boto os óculos penso que assim então estou enxergando como todo mundo, como deve ser, como dita a normalidade.
não quero enxergar como todo mundo. não que esteja evitando a realidade, não é isso. e ninguém garante que a melhor das visões humanas não seja limitada e deixe muito por escapar.
é que sempre reservei a mim uma discreta anormalidade no observar. porque o modo de perceber define o que eu sou, quem eu sou. e quando deixo de ver o que todo mundo vê, reparo o detalhe, não raro, essencial.




sophia compeagá








obs.: caros pedestres de Canoas e Porto Alegre, cabe observar que, embora não conste na minha habilitação que devo fazer uso das lentes quando ao volante, sim, eu uso óculos quando dirijo!



17 janeiro 2010

da miopia

Todo dia essa miopia vem me lembrar de reparar nos detalhes e dar uma esquecida do que está distante.
Na última consulta a doutora disse que 'pra perto' minha vista é perfeita, e eu confesso que senti um certo orgulho disso.
Mas a miopia vem... especialmente de tardezinha, mais pro final do dia, quando os olhos estão cansados de tentar enxergar além, que é quando também vem a saudade... E a miopia diz: 'aproveite o agora, o que está longe é pra depois'.

sophia compeagá





10 outubro 2009

Ensaio sobre a miopia


Hoje estive ausente de mim.
Não consegui me concentrar em nenhuma tarefa a que me propus.
Estive alheia o tempo todo, num mundo paralelo. Mas um mundo de nada.
Fuga de não sei o quê, ou talvez saiba, mas não queira lembrar.
Fuga de mim.

Quando me sinto assim parece que a qualquer momento vou me desintegrar, partir em pedaços, desaparecer...
Por um lado o desejo da fuga, dessa desaparição. Por outro o desespero.
É quando vem a necessidade de escrever. Numa tentativa talvez de me estruturar, de me refazer, de existir, de não d'existir.
Penso que escrever é, não uma espécie de loucura, mas fruto dela.

De todas as minhas formas de salvação, a escrita é a mais verdadeira.
Porque é o que realmente me aproxima de mim. Sou eu estendendo os braços para mim mesma.
De outro modo estaria ligando para amigos, marcando sessão extra de análise, abrindo uma garrafa de vinho.
Escrever me ajuda a enxergar-me melhor mas de modo que eu vá me apresentando aos poucos, sem sustos. Talvez com surpresas, mas na medida e tempo equivalentes ao que eu possa suportar e que me sejam necessários enxergar.

Hoje me esforcei por enxergar.
Nunca os uso dentro de casa, mas hoje decidi colocar os óculos.
Um recurso prático (já que a pauta aqui é a objetividade), na tentativa de me aproximar um pouco mais da realidade.
Realidade, a partir do meu míope ponto de vista, é aquilo que a maioria das pessoas diz que é, mesmo que cada um nem sempre a veja como diz, mas acredita que os outros a vejam, e portanto a adota como verdade.
Já a miopia, por sua vez, é aquela cegueira (leve, severa ou moderada a depender da necessidade) para o que é externo e está fora, e longe; é a tendência inconsciente à introspecção, a olhar para dentro de si, e a ignorar todo o resto.

Não sei ao certo se a realidade é objetiva ou subjetiva, talvez existam várias realidades, talvez não exista nenhuma.
Descobrir esta resposta não vai fazer diferença... E já nem sei mais se quero respostas. Vou manter meu silêncio. Hoje, além de muda, estou cega e surda
.

Sophia Compeagá