26 janeiro 2010

Sobre andanças e mudanças II


estive bem ocupada com nossa mudança nos últimos dias, e já estamos na casa nova. agora é casa mesmo, não mais apê.
viva! temos um quintal! e um universo de outros seres com quem teremos que conviver.
ontem uma não-muito-simpática formiga veio me dar as boas vindas. tive que lançar mão do meu bom e velho anti-alérgico. aff...
mas estamos muitíssimo felizes! zeca nem se fala... já pulou três vezes o muro pra ir cumprimentar os novos vizinhos caninos. quase surtei quando vi ele cheirando o traseiro de outro cachorro quase dez vezes maior que ele. felizmente os vizinhos parecem ser de paz, embora mesmo assim eu desconfie de que eu não esteja utilizando os melhores instrumentos para conquistá-los, furadeira e martelo não me parecem muito agradáveis... mas pode ser só impressão.

mudar tem muitas vantagens, a gente se desafia, se sente gente grande, é uma aventura! tem que carregar móveis, se desfazer de algumas coisas, tomar decisões importantes, ponderar, e pechinchar. inclusive estou desenvolvendo esta habilidade...
mudando, a gente acaba se descobrindo um pouco engenheiro, arquiteto, eletricista, encanador... e, quem morre de medo de que os outros risquem seus móveis e quebrem suas louças, também se descobre um pouco halterofilista. e haja fôlego!

com essa idéia de mudanças reais, externas e estéticas me inspirei pra mudar a cara do blog também. já vi que foi aprovado por alguns e fiquei feliz. achei engraçado o márcio, depois de elogiar, me dizer discretamente que só não tinha entendido a razão da cereja. na verdade não tem muita explicação mesmo, a não ser o fato de eu amarrrr cerejas. mas até tem uma simbologia interessante por detrás da imagem da cereja pelo que andei vendo...
ao que parece, a cereja representa movimento (coincidentemente mudanças) e é adotada pela filosofia dos samurais como representante da brevidade da vida por causa da curta vida de suas flores que são levadas com facilidade pelo vento. também encontrei a cereja representando paixão, desejo e fertilidade. gostei destes últimos, não há nada mais fértil que o desejo, e há muito em que falo sobre desejo aqui no blog.
como disse hegel: "o desejo é imparável". e, pensando bem, no final, todas as representações não deixam de remeter a uma coisa só: movimento, mudança e transformação.
é, talvez a cerejinha tenha sido uma boa escolha, mesmo sem me dar conta...

mas, sabe... agora tô mais pro que é sólido, concreto e duradouro. tenho voo marcado para daqui uma semana e por enquanto não quero pensar em nada que me lembre movimento. sem falar que estou "por aqui" de mudanças...
que haja desejos sim, mas que sejam muito profundos...
por agora quero me preocupar com meu quintal. se as formiguinhas permitirem, vou andar descalço sobre a grama assim que a chuva parar e quem sabe receber um pouco da energia estável da terra.
estável, claro, até o próximo terremoto!


sophia compeagá

17 janeiro 2010

da miopia

Todo dia essa miopia vem me lembrar de reparar nos detalhes e dar uma esquecida do que está distante.
Na última consulta a doutora disse que 'pra perto' minha vista é perfeita, e eu confesso que senti um certo orgulho disso.
Mas a miopia vem... especialmente de tardezinha, mais pro final do dia, quando os olhos estão cansados de tentar enxergar além, que é quando também vem a saudade... E a miopia diz: 'aproveite o agora, o que está longe é pra depois'.

sophia compeagá





09 janeiro 2010

Sansões e Dalilas

nunca imaginei que a sensibilidade de um cachorro fosse tão longe...
zeca foi tosado pela primeira vez e voltou todo deprimido do pet, de cabeça baixa e quase sem reação. morri de pena.
realmente ficou muito diferente e temi que ele lesse nos meus olhos o quão estranho ele estava.
a depressão dele durou um dia, assim como a minha tendo que ver ele naquele estado.
sem sucesso tentei animá-lo, brincando e fazendo bagunça, até que desisti, me deitei do lado dele e apagamos juntos...
ele já melhorou e agora está todo serelepe, talvez ainda mais que antes porque está todo leve e sem pelos nos olhos. agora vê tudo com esses olhos arregalados que eu nem sabia que ele tinha. e está mto fofo. inclusive acho que o pelo já cresceu um pouco.
é engraçado porque eu tenho toda uma história com cabelos. minha família toda tem.
hoje todo mundo lá em casa é cabeleireiro, mas antes era só minha avó. o que já era suficiente para minha tortura.
já fui cobaia de vários experimentos bizarros... só eu sei. eu que sofro do terrível azar de ter o cabelo fino que acaba por se render facilmente aos desejos de mãos sádicas no manuseio de tesouras e químicas diversas.
sabe aquela história de a mãe não deixar a filha pintar o cabelo antes dos 15? não aconteceu comigo... quando eu tinha 9, minha mãe e avó fizeram permanente no meu cabelo. dá pra imaginar? já tive o cabelo de várias cores e tamanhos, e os cortes mais bizarros. isso sem contar que quando eu tinha 2 anos e os cachinhos começaram a aparecer (sim porque nasci totalmente careca), meu pai que queria que meu cabelo fosse liso igual ao da minha mãe, ignorando qualquer conhecimento sobre genética, cortou todos os fios na esperança de vê-los nascer novamente lisos. virei um joãozinho. (valeu pai!)
com todo esse estímulo me senti com total autonomia para, aos 13 anos, comprar um alisador químico na farmácia e pedir para passarem no meu cabelo. acontece que eu não sabia que escova também alisava, ainda que provisoriamente, e a cabeleireira então (minha prima) aplicou o alisador e em seguida fez uma super escova no meu cabelo. desconhecendo que o efeito liso perfeito era do secador, tive o dia mais feliz da minha vida achando que aquilo ia durar "para sempre". aliás, as horas mais felizes da minha vida, porque naquele mesmo dia resolvi nadar em uma cachoeira, molhando as lisas madeixas que logo em seguida voltaram ao estado normal, com a diferenciação de estarem ressecadas e quebradiças. que decepção!
enfim, as experiências não foram poucas... e em quantidade e exagero só perco para minha irmã.
mas realmente não imaginei que isso iria se repetir com meu cachorro. até penso que quando tiver uma filha, vou cuidar do cabelo, evitar qualquer atitude extrema e protegê-la dos avós, tios, primos, etc...
definitivamente os cães e outros animais são muito mais sensíveis e inteligentes do que pensamos. há quem traduza isso em termos de 'humanidade'. me adianto em dizer que está longe disso... nada se compara à espontaneidade dos animais em expressar o que lhes desagrada. diferentemente de nós que expressamos nosso lado selvagem de formas tão inadequadas justamente pela tentativa de ignorarmos nossa truculência. somos muito mais animais do que nossos animais são humanos, e quanto antes nos dermos conta da selvageria que nos habita melhor lidaremos com ela. 
sophia compeagá


"A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também".

(Clarice Lispector)

03 janeiro 2010

do que ficou de 2009...

"Aprendi que música não tem pressa (...) que música é outra maneira de dizer silêncio." (Marco Polo)


...e que felicidade é música, a mais ensurdecedora, com toda contradição que há nisso.
porque a felicidade é contraditória!

Que 2010 seja um ano repleto de contradições, dúvidas e desejos
que instiguem a busca de mais compreensão, conhecimento e realizações!





Sophia Compeagá

21 dezembro 2009

sobre o natal e essa minha 'saudade lilás'


hj acordei chorosa. segundo o bruno, estou com o espírito natalino.
saravá!
na verdade é saudade. este é o segundo ano consecutivo em que passo o natal longe dos parentes.
pais, irmãos, avós, tios e primos a muitos quilômetros de distância... e a cada visita noto o efeito do tempo, as crianças já não não são mais crianças, a família envelhece, alguns já não estão mais entre nós...
(as reticências são mesmo pra representar meu estado de espírito: inconclusivo.)
sempre gostei de natal. sempre anunciei meu prazer pelas festas, pelas reuniões familiares, pela casa cheia e bagunçada, pela falação, pelos amigos secretos que muito antes da revelação deixam de ser secretos, pelos movimentos solidários, e até mesmo pelos ritos religiosos.
ao mesmo tempo nunca compreendi muito bem as pessoas que se diziam avessas ao natal mesmo que se festeje, esteja em família, e em aparente harmonia. a razão de não se gostar, dizem, é a melancolia que a data gera.
percebo agora que também sinto a mesma coisa, uma tristeza adocicada, mas gosto! eu realmente gosto deste clima reflexivo que o natal oferece. e desconfio de que não seja a qualquer um.
tem que ter sensibilidade e tem que estar em contato consigo mesmo para se deixar tocar por este 'sei lá o quê' que tanto mexe com nossas questões, principalmente no que diz respeito às relações.
talvez o clima melancólico do natal se reforce pela proximidade com o ano novo e, claro, pela mensagem de nascimento. a proposta talvez então seja transformar a tristeza em esperança.
concordo que a mensagem é um pouco fantasiosa e romântica. mas se eu realmente puder tirar alguma coisa positiva disso tudo, qual o problema?

eu acredito na força do natal, e se tivesse escolha ainda acreditaria em papai-noel.

sophia compeagá


feliz natal à todos nós,
e um ano novo cheio de insights!




25 novembro 2009

Rita Apoena

Me encanto profundamente com o que Rita Apoena escreve. Mal tenho palavras... mas ela tem! E são palavras que vão tão direto ao coração que a gente lê quase que com todos os sentidos e não somente a visão. Toca na gente como um carinho, soa como música, tem cheirinho de infância e gosto de descobertas. E aguça essa curiosidade infantil de sempre se ler mais de Rita.


"Eu sei que quando um paizinho dorme para sempre, ele não atende mais o telefone, não aparece mais no portão. Não adianta chamá-lo pelo nome ou dizer que é dia de futebol. É que quando um paizinho dorme para sempre, ele fica assim, espalhado no mundo, em todas as coisas pequeninas, e a gente precisa de muita delicadeza para encontrá-lo de volta.

No começo, a gente só o encontra nos suspiros da mãe, nos olhos do cachorro esperando no portão, na cadeira vazia, no remendo dos armários, nos pregos segurando os quadros, na garrafa de vinho, pela metade. Aos pouquinhos e devagar, a gente começa a encontrá-lo nas alegrias do mundo, no vôo das cotovias, no desenho das nuvens formando barquinhos e caravelas, numa pessoa sem mágoa, nas toalhas sem nódoa, e até quando felizes nossos olhos vão se enchendo d'água... "

18 novembro 2009

Duvido de quem não alimenta dúvidas...


"Duvido de quem não alimenta dúvidas,
de quem nunca quis fugir,
dos que não se escondem,
dos que sempre dão a cara pra bater.
Há algo profundamente triste
em não sentir falta
de alguém que não vai voltar...".

(Mário Bortolotto)

13 novembro 2009

Sobre andanças e mudanças

Nesta semana comemoramos o aniversário do Zeca.
Faz tempo que não posto nada sobre ele aqui, e relendo a última postagem, dei algumas risadas. Tamanha era minha ansiedade com a história de levá-lo comigo no voo. Tamanho meu engano querendo atribuir um medo meu à ele.
Não estou “curada”, nem estou tocando neste assunto novamente por estar prestes a tomar um avião - embora minhas férias estejam se aproximando e seja fato que eu vá ter de voar em poucos dias. Também não sei dizer exatamente porque estou escrevendo sobre isso, mas sei que muita coisa mudou, sim.
Nenhuma boa e concreta mudança acontece de uma hora para a outra. É preciso tempo, um tempo interno para vivências, um tempo para a elaboração dessas vivências, um tempo para ir se permitindo, aos poucos, renascer. É mesmo como uma gestação, e um parto... um doloroso parto.
E certas mudanças têm disso, mesmo as mais evidentes. Não se sabe bem onde ela está, onde começou, como ou quando, mas sabe-se muito bem que ela aconteceu.
Eu mudei! E não foi através de propostas milagrosas, revoluções espirituais, ou qualquer outro tipo de pressão. Pelo contrário, mudei justamente quando aprendi a ceder e me dei conta de que quando a luta é interna não há vencedores.
Muito se fala em psicanálise sobre não ceder do próprio desejo, e bancá-lo, confrontando os obstáculos necessários para isso, inclusive os medos.
O que talvez eu tenha aprendido seja, não a ceder DO desejo, mas AO desejo.
Acredito que aquilo que nos causa medo esconde muito do nosso desejo, e não deve ser à toa que “elegemos” certas coisas para temer.
Esse tal medo de voar me obrigou a refletir sobre seus significados e sentidos e pude concluir, não há bater de asas que sustente o peso do medo de sair do ninho. O que eu não sabia era que ao invés de tentar enfrentar o medo, precisava antes, entender o que era criar asas e alçar voo. Precisava saber do meu desejo.

Sophia Compeagá








Zeca fez aniversário dia 10, no mesmo dia em que o 'avô', meu pai.
Claro, com o 'avô' paraquedista e o 'pai' piloto, achar que ele teria qualquer medo ao embarcar no avião só poderia ser neurose de 'mãe'...

30 outubro 2009

silêncio con-sentido


deve haver dois tipos de silêncios. eu, pelo menos, assim os separo. o primeiro representa o vazio real e improdutivo da falta de sentido. faz-se silêncio porque realmente não há o que ser dito. e existe o segundo. o que evita a banalização do sentido através da palavra. longe da falta de racionalidade ou de capacidade de simbolizaçao, mas um desejo puro de não arriscar o que cuidadosamente se construiu e hoje se acomoda carinhosamente nas melhores recordações.
transformar o indizível em palavras é arriscar reduzi-lo ao tamanho da nossa ignorância. às vezes há que se aquietar as palavras para não emudecer o coração.

sophia compeagá

23 outubro 2009

we're all in the dance



Até que enfim assisti Paris, Je t'aime. Simplesmente lindo! Simples e lindo. Daqueles que nos chacoalha praquelas coisas simples da vida que, talvez justamente por serem fugazes, sejam tão especiais.
O filme apresenta várias histórias curtas -mas de infinitos significados- do cotidiano de pessoas que moram em Paris, e nos revela a cidade de um jeito diferente do que se está acostumado, muito singular, desprovido de fantasia e nostalgia, mas sem deixar de falar de amor.
Penso que muitas vezes tentamos dar sentido à nossa vida esperando um fato grandioso e surpreendente como se este fosse imprescindível para se sentir que valeu a pena viver. E muita coisa é sacrificada em função desta espera que às vezes se faz em vão. Claro que existem os sonhos, e sonhar nunca é em vão, mas quando falo dos sacrifícios falo de como nos cegamos para o que está perto, e às vezes para o que está dentro, e deixamos de viver pequenos grandes momentos.
Nossa vida é feita de pequenas histórias, e não adianta tentar encaixá-las na história maior enquanto elas acontecem. A amarração e atribuição de sentido só é possível depois. Por isso de nada adianta controlar os fatos, a única garantia de estarmos na história certa é atentarmos para o que sentimos. Acredito que, tendo o coração como norteador, qualquer história valerá a pena ser vivida. Mesmo que doa.
Mas acima de tudo acredito que as histórias ainda estão sendo escritas, e no final estaremos todos "dans la même histoire". Na mesma história.

Sophia Compeagá




18 outubro 2009

A antipalavra



"Jantaram, subiram para o quarto, fizeram amor. Em seguida, no limiar do sono, as idéias começaram a se embaralhar na cabeça de Franz. Lembrou-se da música barulhenta do restaurante e pensou: "O barulho tem uma vantagem. No meio dele não se ouvem as palavras". Desde sua mocidade, não fazia outra coisa senão falar, escrever, dar cursos, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi-las, de maneira que as palavras nada mais tinham de exato, o sentido delas se apagava, perdiam seu conteúdo sobrando apenas migalhas, partículas, poeira, areia, que flutuava no seu cérebro dando-lhe enxaqueca, e que era sua insônia, sua doença. Teve então a vontade confusa e irresistível de uma música enorme, de um barulho absoluto, uma bela e alegre algazarra, que englobaria, inundaria, esmagaria todas as coisas, que anularia para sempre a dor, a vaidade, a mesquinharia das palavras. A música era a negação das frases, a música era a antipalavra. Tinha vontade de ficar com Sabina num longo abraço, de calar-se, nunca mais pronunciar uma só frase, deixar o prazer confluir com o clamor orgiástico da música. Dormiu nessa bem-aventurada algazarra imaginária."



(Milan Kundera in 'A insustentável leveza do ser')

10 outubro 2009

Ensaio sobre a miopia


Hoje estive ausente de mim.
Não consegui me concentrar em nenhuma tarefa a que me propus.
Estive alheia o tempo todo, num mundo paralelo. Mas um mundo de nada.
Fuga de não sei o quê, ou talvez saiba, mas não queira lembrar.
Fuga de mim.

Quando me sinto assim parece que a qualquer momento vou me desintegrar, partir em pedaços, desaparecer...
Por um lado o desejo da fuga, dessa desaparição. Por outro o desespero.
É quando vem a necessidade de escrever. Numa tentativa talvez de me estruturar, de me refazer, de existir, de não d'existir.
Penso que escrever é, não uma espécie de loucura, mas fruto dela.

De todas as minhas formas de salvação, a escrita é a mais verdadeira.
Porque é o que realmente me aproxima de mim. Sou eu estendendo os braços para mim mesma.
De outro modo estaria ligando para amigos, marcando sessão extra de análise, abrindo uma garrafa de vinho.
Escrever me ajuda a enxergar-me melhor mas de modo que eu vá me apresentando aos poucos, sem sustos. Talvez com surpresas, mas na medida e tempo equivalentes ao que eu possa suportar e que me sejam necessários enxergar.

Hoje me esforcei por enxergar.
Nunca os uso dentro de casa, mas hoje decidi colocar os óculos.
Um recurso prático (já que a pauta aqui é a objetividade), na tentativa de me aproximar um pouco mais da realidade.
Realidade, a partir do meu míope ponto de vista, é aquilo que a maioria das pessoas diz que é, mesmo que cada um nem sempre a veja como diz, mas acredita que os outros a vejam, e portanto a adota como verdade.
Já a miopia, por sua vez, é aquela cegueira (leve, severa ou moderada a depender da necessidade) para o que é externo e está fora, e longe; é a tendência inconsciente à introspecção, a olhar para dentro de si, e a ignorar todo o resto.

Não sei ao certo se a realidade é objetiva ou subjetiva, talvez existam várias realidades, talvez não exista nenhuma.
Descobrir esta resposta não vai fazer diferença... E já nem sei mais se quero respostas. Vou manter meu silêncio. Hoje, além de muda, estou cega e surda
.

Sophia Compeagá

07 outubro 2009

o luxo de meu silêncio



"Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."


Clarice Lispector in 'Água Viva'

01 outubro 2009

(in)quietude

Silenciosa mas inquieta, assim tenho estado. Sem palavras mas com muito o que dizer.
Nunca o silêncio me falou tanto como agora.
Estranho ter que conter para me sentir inteira, consistente. Como se a palavra tivesse peso. Como se precisasse segurá-la para não perdê-la para sempre de mim. Para que eu não me esvaia junto dela escorrendo por entre a fala, sobrando o vazio.
Sempre acreditei no contrário, que para existir precisasse dizer, contradizer e traduzir, por acreditar que 'aquilo que chamo de eu' fosse essencialmente pensamento e linguagem.
De repente me dou conta: tenho um corpo! E descubro nele um mundo de linguagens e símbolos comunicando vida!
E não podia ser diferente, foi através dessa mesma linguagem que o insight se deu.
Tudo faz sentido agora, "no princípio era o verbo" não no sentido de palavra, mas no sentido de ação.


Sophia Compeagá





"Tenho um corpo, e tudo que eu fizer é continuação do meu começo"
(Clarice Lispector)

22 setembro 2009

Desconhecidos íntimos

Amo Clarice, amo a simplicidade com que escreve que como ela mesma diz é uma simplicidade conquistada através de muito trabalho.
Seu jeito de escrever, que ao mesmo tempo questiona a própria linguagem, nos convida a fazer os mesmos questionamentos e aos poucos nos vai introduzindo na leitura como se nós mesmos a tivéssemos produzido.
Às vezes ler Clarice é quase terapêutico. Recorro a ela quando não compreendo algumas coisas, como quando algum intruso e desconhecido sentimento me invade e não consigo compreendê-lo, quando faltam-me os insights.
Existem mistérios que teimam em seguir sendo mistérios. Difícil pra mim que sempre quero resposta pra tudo.
Às vezes a resposta é o próprio silêncio. E frequentemente a resposta é a própria pergunta, sem o ponto de interrogação no final.






"Estou desorganizada {…}
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira que vivo.
{…}Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?”
(Clarice Lispector - 'A Paixão Segundo G.H.')

13 setembro 2009

Mais do mesmo

Tinha dado um tempo. Tinha desistido de insistir em falar, estudar, tentar entender, me questionar, provocar, me intrigar com a morte e tudo que a rodeia: perdas, luto, sofrimento, superações e principalmente vida! Vãs tentativas...
Tinha decidido que não era um assunto que me interess
ava realmente, mas que era antes uma intimidade 'herdada' com relação ao tema.
Aprendi com meu pai a respeitar a morte, a estar consciente dela, a falar livremente sobre ela, e que a morte dói. Graças à Deus nunca m
e obrigaram a ser forte, a ignorar qualquer perda, a tocar em frente quando o mundo desabava. As pessoas mais importantes da minha vida, aquelas com quem eu contei, quando precisei se doeram comigo, choraram comigo e me ajudaram a reconstruir respeitando meu ritmo.
Por estas e outras razões, o tema da morte sempre me foi muito presente, e interessante. Por um tempo achei que fosse uma questão
mal elaborada justificando a insistência e curiosidade. Talvez tenha sido, mas já não é mais.
De qualquer forma não adianta fingir desinteresse se a coisa lateja.
O que acontece é que novamente me vi diante dessas questões, num contexto mais formal, mas ainda assim diante, defronte, sem me deixar proteger pelo ilusório escudo da teoria, ou do jaleco branco.
Acredito que hoje esteja mais madura pra lidar com isso. Mas minha confiança vem mais da humildade e simplicidade conquistadas do q
ue do conhecimento adquirido. Afinal, nunca se está totalmente preparado pra enfrentar tais coisas, assim como o sol, a morte nos impede de olhá-la fixamente e decifrar sua beleza. Sim, beleza...

Sophia Compeagá

27 agosto 2009

27 de agosto, dia do psi!

Hoje é o dia do Psicólogo! Venho comemorando esta data há vários anos, e a cada ano que passa sinto que me aproprio de um novo sentido para a profissão.
Ontem saí com as colegas da faculdade pra comemorar a data e quase não consegui chegar até o lugar marcado. Me perdi em Porto Alegre (o que tem se tornado frequente nos últimos meses), mas ao final, com as mil e uma coordenadas recebidas pelo celular encontrei o bendito lugar. Aliás, "Santíssimo" lugar, esse era o nome do pub.
E acabei por concluir: psicólogo é aquele que vai na contra-mão, literalmente!

De presente o novo samba da Zélia, "Tô". Perfeito pra ocasião!
Beijos e abraços para meus futuros colegas de profissão!



"Tô estudando pra saber ignorar...
Eu tô te explicando pra te confundir,
Tô te confundindo pra te esclarecer
Tô iluminado pra poder cegar,
Tô ficando cego pra poder guiar...
Suavemente para poder rasgar
Olho fechado pra te ver melhor..."

(Tom Zé)

22 agosto 2009

Quando passei a respeitar o que sentia




Odeio me confundir,
preciso sempre me iludir com a crença
de que entendo o que se passa,
como se fosse possível absorver tudo por inteiro.
Crio teorias, analiso situações,
pessoas, atitudes, falas.
Fantasiosamente controlo todos,
desejando, sem saber, controlar a mim mesma.
Quando passei a respeitar o que sentia,
nada mais importava.
Eu que sempre me importei em ser compreendida
e não suportava ser mal interpretada.
Quando se aprende a respeitar os próprios sentimentos
é mais fácil conduzi-los.
E pensar que era só uma questão de silêncio e entrega...
tão mais simples!




Sophia Compeagá

19 agosto 2009

TCC




Estou decidindo meu tema de TCC, e não estou achando nada fácil. Sempre preferi pensar que nossas escolhas deviam se basear no que realmente nos interessa, num tema com o qual nos identifiquemos e que faça sentido debruçar-se a estudá-lo.
Quero que seja assim, visceral. Quero me lançar no desbravamento de teorias e me deparar várias vezes comigo mesma. Quero que mexa comigo, que confronte minhas idéias, quero criar uma coisa realmente nova, nem que seja apenas dentro de mim.
Meio dramático, eu sei, mas sempre sonhei com esse momento na minha formação. Mesmo que ainda não tenha decidido o tema.
Não sei me interessar pelo desinteressante. Preciso sempre encontrar um sentido naquilo que faço.
Tem gente que prefere o contrário. Escolhe um tema neutro, e consegue se dar muito bem. Justamente porque não se envolveu emocionalmente. E tem gente que sugere mesmo isso!
Já tentei, não vai!
Estou dividida entre dois temas que sempre foram presentes na minha formação, ou além dela, na minha vida.
Talvez eu precise acalmar os ânimos, lembrar que isso é só mais um trabalho de faculdade, e com esse olhar menos deslumbrado conseguir escolher o que me agrade mas não esteja tão latejante.
Mesmo que eu saiba que aquilo que lateja aponta o latente, o urgente, escondido dentro da gente.



Sophia Compeagá

desabafo

Hoje uma coisa me aborreceu um pouco. Mas só um pouco. Ou talvez não tão pouco, mas por pouco tempo.
Notei que alguns textos meus estavam sendo exibidos no orkut como sendo de outra pessoa. Então investi na pesquisa para tentar entender melhor o que estava acontecendo.
"Criaram" um texto com três parágrafos, entre eles usaram um texto meu mas assinaram como se quem o tivesse escrito fosse uma pessoa que desconheço. Encontrei o blog da tal pessoa e notei que ela não tinha copiado nada, mas que realmente parte daquela montagem era do blog dela.
Menos mal. Mas ainda assim é chato ver uma coisa sua ser publicada com nome de outra pessoa. Já vi diversas vezes pessoas usarem textos meus daqui do blog em suas páginas na internet. A maioria respeita os créditos, bota lá um 'Sophia com PH', 'Sophia Vieira', às vezes 'Sofia Sempeagá' mesmo, mas nem todo mundo credita, alguns deixam em branco por tentarem fazer se passar por seus ou, sei lá, de repente por não saberem que ao citar um trecho escrito por outra pessoa têm que se respeitar algumas regrinhas...
Sinceramente, nesses casos eu não me importo muito, isso aqui para mim é um passatempo, um desabafo.
Ninguém nunca vai saber de fato o que sinto enquanto escrevo. À essência disso aqui só eu tenho acesso.
E fico realmente feliz quando vejo alguém citar os textos. De alguma forma se identificaram, e de alguma forma devo ter me feito entender.
Não pretendo publicar livros (não sobre o que escrevo aqui), não pretendo ganhar dinheiro (com isso, repito!), não vou registrar nada - contrariando os conselhos que recebi, e muito menos reclamar com as pessoas que estão fazendo circular por aí os textos sem os devidos créditos, embora não tenha sido agradável ver, entre pessoas próximas a mim, meus textos com autoria de outros.
Como tudo que posto aqui, isto foi só mais um desabafo. E já passou...




"Escrevo porque é a maneira mais barata, mais divertida e mais impune de ser clandestino."
(Alan Pauls)

18 agosto 2009

Selo

Tirando o atraso dos selos e memes, tô eu aqui de novo pra postar sobre um selinho que recebi da Janaína.
O selo se trata de uma homenagem para os blogs que gostamos e, além de repassá-lo, temos que apontar 5 coisas que adoramos, o que não é fácil.
Nunca acho essas tarefas fáceis... a gente acaba se expondo mais do que em postagens de cinco páginas. Diferente das postagens livres, os memes nos obrigam a dar respostas curtas e objetivas, nos dão um limite, literalmente. Mas eu topo o desafio! E esse é bem rápido.


As 5 coisas que mais gosto são:

estar com pessoas divertidas e engraçadas
sentir que estou em dia com meus afazeres (o que é muito raro)
descobrir novas possibilidades quando as coisas não estão bem
ajudar alguém a enxergar estas mesmas novas possibilidades
aprender coisas novas que me confrontem e me façam rever tudo de novo e lembrar que a vida é esse mistério infinito.

Repasso para eles:

13 agosto 2009

por um triz...

"De ontem em diante serei o que sou no instante agora".

(O Teatro Mágico)

Recebi há uns dias um meme da Vanessa com perguntas e respostas e estou respondendo agora...




Regras:
1) Responder a verdade.
2) Repassar aos blogueiros que conhece.
3) Não esquecer do recadinho para quem te convidou.




Perguntas:

1) Onde está seu celular? não sei. mesmo! pela casa...

2) E o [marido] namorado? no trabalho.

3) Cor do seu cabelo? loiro com luzes e um pouco natural. (deixei as mesmas palavras da vanessa, só que o meu natural é preto, muito preto).

4) O que mais gosta de fazer? me divertir de alguma forma, mesmo com coisas sérias. realizar uma tarefa com prazer pra mim é diversão.

5) O que você sonhou na noite passada? não lembro, mas muito provavelmente com algum tornado ou tempestade... é o que mais acontece.

6) Onde você está agora? em casa, curtindo as férias forçadas em função da gripe. tá tudo parado por aqui.

7) Onde você gostaria de estar agora? hoje saiu um solzinho... me lembrou a praia. gostaria de estar em fortaleza, na praia do futuro, na barraca vira verão, numa mesa que fique tão pertinho da água que no final da tarde tenha que recuar por causa da maré. bem ali.

8) Onde você gostaria de estar em seis anos? aqui.

9) Onde você estava há seis anos? em minas, começando a faculdade.

10) Onde você estava na noite passada? num pub com amigos.

11) O que você não é? o que não sou agora posso ser daqui há pouco.

12) O que você é? um monte de coisa junto e misturado.

13) Objeto do desejo? tá ficando muito difícil isso aqui... seria um desejo material? quero uma mini-academia pra começar a malhar. mas não hoje! quem sabe amanhã... ou depois.

14) O que vai comprar hoje? nada. no máximo alugar um filme.

15) Qual sua última compra? uma jarra de clericot!

16) A última coisa que você fez? um sanduíche.

17) O que você está usando? pijama. haha. claro! e pantufas!

18) Quem está com você agora? ninguém.

19) Seu cachorro? o zeca, tá pela casa.

20) Seu computador? sei lá, sei q funciona.

21) Seu humor hoje? tô com o humor: "sei lá". mas até que feliz porque comecei a ler um livro muito legal e isso mexeu muito comigo de manhã.

22) Com saudades de alguém? ô!

23) Seu carro? esse tem histórias... já andou em dunas e atravesou o país. guerreiro!

24) Perfume que está usando? um creme de vinho que ganhei de aniver.

25) Última coisa que comeu? o tal do sanduíche que falei.

26) Fome de quê? de nada. absolutamente.

27) Preguiça de… ? de tudo. absolutamente.

28) Próxima coisa que pretende comprar? que questionário consumista! sei lá, uma passagem de trem.

29) Seu verão? ah, o verão...

30) Ama alguém? pra caramba.

31) Quando foi a última vez que deu uma gargalhada? agora há pouco no msn.

32) Quando chorou pela última vez? sei lá. no meu aniver semana passada eu acho, com algumas mensagens.


Repasso para os blogueiros vizinhos que queiram se aventurar:




"Onde estou não é sempre e o que sou é por um triz"

(Cleonice Braz)


11 agosto 2009

requintadas harmonias




Estou cheia de sentimentos não elaborados e momentos não terminados. Eu mesma sou uma pessoa inacabada, indefinida. De infinitos 'ins'.
É possível a própria indefinição definir a pessoa?
Sou o retrato do instante agora, e quando me defino sou apenas uma pessoa que se define. É sempre movimento, e mesmo aquele milésimo de segundo que a câmera registra, é movimento.
Sou um conjunto de retratos antigos, mofados e revirados, mas que agora descansa numa caixa qualquer que eu embalei com cuidado no canto da sala. E que só é lembrada quando é preciso tirar o pó. Não, nunca tiro a poeira da caixa pela caixa em si, como se ela tivesse uma importância maior que os outros objetos da sala. Tiro a poeira da caixa quando os outros objetos requerem limpeza e organização, e então a caixa se beneficia da faxina para harmonizar-se com todo o resto.
O passado não me diz quem sou ou quem posso ser. Nem o presente. Por isso não há definições nem previsões.
Definir é delimitar, e dar fim, e eu sou feita de recomeços.

Sophia Compeagá

"mas não é difícil congelar a cena,
é quando as folhas não pousam no chão,
e os braços ficam suspensos no ar,
num abraço que ela não terminou".
(Rita Apoena)

08 agosto 2009

equilíbrio distante



toda força que coopera para o desequilíbrio traz consigo a proporção necessária, ainda que potencialmente, para seu reverso. a doença e sua cura, o trauma e sua superação, o enigma e seu segredo, o problema e sua solução, a dúvida e sua resposta. mas é preciso atuar sobre todos eles, repassá-los, tocá-los, explorá-los para que se dissolvam e desapareçam. e então, quem sabe, deixem atrás de si algum aprendizado.
mas há experiências a partir das quais nunca mais se volta ao estado anterior. elas te expõem a tantas verdades antes escondidas, que o equilíbrio anterior se torna muito distante, quase inalcançável. é quando a realidade mais assustadora vem à tona. quem se é.

sophia compeagá


03 agosto 2009

do que cala

às vezes as palavras falham mas o silêncio não basta.
é o coração que aponta a inutilidade de se nomear
o que nem ao menos se pode descrever.

sophia compeagá


'tem certas coisas que eu não sei dizer...'

27 julho 2009

26th

aniversário chegando. o vigésimo sexto.
aquela idade em que saímos dos 'vinte e poucos' e saltamos pros 'vinte e tantos'.
ou 'quase trinta'...
e tudo que mais desejo é manter viva em mim a capacidade de me surpreender. especialmente com o que é mais lógico e banal das coisas diárias. o que talvez seja um grande desafio.
se conseguir enxergar os novos detalhes de cada momento então vivenciarei a travessia do tempo e saberei conceber o presente como tal, um presente.

sophia compeagá



"eu gosto de viver.
já me senti ferozmente, desesperadamente,
agudamente feliz,
dilacerada pelo sofrimento,
mas através de tudo ainda sei,
com absoluta certeza, que estar viva é sensacional."

(agatha christie)

14 julho 2009

há muitas distâncias em mim

"Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas".
(Rita Apoena)

06 julho 2009

decola... dê-colo?



passagens compradas. zeca vacinado (sim, ele vai). malas idealizadas.
é que eu monto a mala na minha cabeça antes de começar a arrumá-la de verdade...
coleiras do zeca, shampoozinhos, ração, bifinhos, remédios (ele enjoa na viagem).
e eu tô realmente preocupada por ter de deixar ele no porão do avião. se fosse pela outra empresa aérea, ele poderia vir comigo no colo, mas nessa é proibido. tadinho...

hoje vou na análise. claro, também me preocupo comigo.
além disso já fui no psiquiatra também. semana passada. pela primeira vez.
porque tive que me deparar com uma coisa que parece absurda, mas é real. meu medo de voar que eu nem sabia que tinha.

provavelmente hoje na análise eu não faça como na outra sessão em que falei do zeca, dos medos do zeca, dos enjoos do zeca, das consultas do zeca, da nova case do zeca que é uma graça.
e só depois de me enrolar, no final, tocar no assunto emergente, esse medo de voar...

na verdade adoro voar, e acho o máximo ver daqui de baixo os aviões pousando e decolando, mas adoro a vista lá de cima também. meu maior problema é o pouso.
a trepidação, o chão chegando, a incerteza da desaceleração, o barulho do reverso... pânico total!

semana passada, assim que saí da análise entrei no ônibus (e em Porto Alegre os ônibus são interessantes, eles têm várias poesias pelas janelas, algumas conhecidas, mas a maioria não), e me deparei com esta:

"biruta: a intensidade dos ventos se mede pela vontade de ficar". (de paulo madureira)

minha paranóia quase me permitiu achar que a minha analista tinha ido lá mais cedo colar aquele cartaz, bem em cima do meu assento, onde meus olhos não podiam evitar ver.

já contei que tenho (pavor e) paixão por tornados? na verdade qualquer vento ameaçador me amedronta. e fascina... é coisa de gente biruta mesmo.
mas dessa vez não é o vento, é o pouso...

demorei mas entendi a pergunta que ela me fez pouco antes do final de uma das últimas sessões... qual é mesmo o nome da cidade pra onde você está indo?
é Pouso Alegre, Minas...


sophia compeagá





03 julho 2009

2 inteiros



não quero metade nem resto,
quero o todo, quero tudo.
teu riso, tua lágrima,
teu choro e gargalhada,
teu silêncio, sussuro e grito
qualidades e defeitos...
tua doçura e até o humor mais rude,
tuas manias e loucuras,
tuas obsessões e teu lado avesso, travesso...
tuas dúvidas, e mesmo aquilo onde você menos está:
nas tuas certezas.
e quero caminhar contigo,
mesmo que às vezes um vá na frente,
as mãos se separem, voltem a se entrelaçar,
um se enrosque, o outro se atrase,
um desande, o outro se perca,
um cambaleie, o outro siga ziguezagueando...
linhas paralelas nunca se cruzam.


por sophia compeagá

30 junho 2009

Lista dos desejos





Este selinho, oferecido pela Janaína do Mais Um , é como uma corrente entre os blogs e quem recebe deve passar adiante...

As regras dele são:
1) A pessoa selecionada deve fazer uma lista com oito coisas que gostaria de fazer até o fim da vida;
2) É necessário que se faça uma postagem relacionando estas oito coisas e é necessário que a pessoa explique as regras do jogo;
3) Ao finalizar, devemos convidar oito blogs;
4) Deixar um comentário para quem nos convidou.

Então vamos lá com a lista...
Parece simples mas não é, principalmente pra mim que não sou de fazer planos.

Acho que o primeiro deles é terminar bem minha faculdade, tendo aproveitado tudo que ainda está por vir na minha formação, os estágios, as aulas, toda e qualquer experiência;

Segundo é curtir muito a região sul, onde moro agora. Sabe-se lá, nessa nossa vida nômade, até quando vamos ficar por aqui. Mas espero que por uns bons anos ainda;

Em terceiro, e à longo prazo, é ter um filho. E tempo pra cuidar dele;

Em quarto, trabalhar. Muito! E continuar meus estudos sempre;

Em quinto, e bem subjetivamente falando, quero me sentir útil. Não só no trabalho, mas em qualquer atividade ou relação. Quero, no final de tudo, sentir que vivi intensamente. E acredito que isso se valha mais das pequenas coisas do dia a dia do que de um grande feito;

Em sexto quero conhecer alguns países. Sei que não vai dar pra dar a volta ao mundo, mas um que tenho certo como escolha é a França;

Em sétimo desejo longa vida aos meus;

Em oitavo quero uma bota nova e um chinelo, porque o Zeca destruiu todos...

Os blogueiros para quem repasso o selo são:
Amanda Soares
Márcio Beckman
Bruna Matos
Dani Cabrera
Sara
Vanessa

26 junho 2009

bem concreta e verde...

estou feliz. uma alegria mansa, clara, calma, quase um suspiro.
não uma alegria eufórica, gritante, confusa, advinda das coisas que surpreendem e desorganizam, mesmo em função de um grande acontecimento!
mas sim, estou vivenciando um grande momento. e sinto a alegria de alguém que fez por merecer, de alguém que construiu aos poucos a obra que agora observa ao longe. e reconhece.
buscar reconhecimento demais fora de si, é ter falta de reconhecimento dentro. pois então é chegada minha vez de contemplar...
e estar feliz por saber que o melhor ainda está por vir, e que toda a paciência que cultivei será recompensada.
estou feliz. quieta, cá, no meu canto. mas feliz. (assim, sem exclamações...)



sophia compeagá


p.s.: uma de minhas violetas floresceu esta semana... depois de 1 ano, agora que o sol voltou a nascer na janela da cozinha e bater nelas de manhã. não é uma graça?

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"aqui em casa pousou uma esperança. não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. mas a outra, bem concreta e verde: o inseto"
(clarice lispector em 'felicidae clandestina').

16 junho 2009

dos laços

Existe um termo que ouço muito na faculdade e acho interessante, "amarração", que significa a capacidade de união de dois conceitos ou ainda, a união do conceito à prática. Uma coisa está amarrada quando o conceito se completa e se esclarece, principalmente conceitos que vão se complementando aos poucos até que se chegue a uma compreensão mais global do assunto, o que é comum nas disciplinas. Claro, essa é a minha amarração a respeito do termo!
De tanto ouvir e pensar sobre a estranheza da expressão, lembrei de quando era criança e de quando aprendi a amarrar meus próprios sapatos. Parecia uma coisa tão absurda na sua complexidade, e minha mãe era capaz de fazer aquele laço - que vinha depois do nó e era formado por dois outros semi-laços - numa velocidade incrível! Enfim aprendi! Mas o valor à nova habilidade não durou muito, logo passei a esconder o cadarço do tênis embaixo da palmilha, como faço até hoje, e o encanto do laço no sapato se perdeu!
Hoje penso que, mais difícil que aprender a amarrar os próprios sapatos, é aprender a desamarrá-los. No mundo subjetivo os sapatos não só deixam de servir por estarem menores que nossos pés, mas também por estarem maiores e pesados demais. E as desamarrações então se fazem necessárias.
Estou aprendendo a desamarrar os meus. Talvez com um pouco de atraso, talvez no tempo certo das minhas necessidades.
Mas aprender a desamarrar e abandonar velhos calçados é imprescindível para que se possa caminhar com os próprios pés e escolher os próprios caminhos.


Sophia Compeagá

10 junho 2009

das constatações


Deve haver um tempo certo para tudo. E não falo de destino nem nada parecido, falo sobre a gente não se dar conta de certas coisas - mesmo aquelas que estão no nosso nariz com uma seta verde-fosforescente enoooorme e piscante - até que estejamos preparados para tal.
A aceitação de uma idéia desagradável, a constatação de um fracasso ou a admissão de uma culpa só se dão quando de alguma forma a gente se sente protegido o suficiente para acolher a nova informação.
Mas há casos em que essa regra não se aplica, é quando vem a vida e nos empurra para certas situações em que somos obrigados a aceitar algumas verdades, goela a baixo, à seco, insípidas.
Como um tapa na cara a realidade se apresenta sem nenhuma sutileza.
Então a ficha cai, a casa cai, a gente cai.
'A pior queda é cair em si mesmo'.


Sophia Compeagá

27 maio 2009

do estranho

tantas vezes a gente finge ser normal sem se lembrar de que normal mesmo é ser diferente.
e finge com tamanha força que acredita na própria mentira e também a espera dos outros.
vou criando meus dias, me recriando entre os dias,
dia sou, dia não sou, às vezes estou onde não sou.
quase nunca estou onde sou.
às vezes há encontro.
estranha essa coisa de existir.

sophia compeagá

14 maio 2009

In-sights

"Ele gostava tanto dessas palavras começadas por ininvisível, inviolável, incompreensível - que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias".

(Caio F. Abreu em “Os Dragões não Conhecem o paraíso”)

06 maio 2009

Com-tradições

Falei tanto sobre felicidade e infelicidade nos últimos posts mas, noto agora, acabei por não concluir muita coisa. Disse, desdisse e contradisse-me um punhado de vezes, sem fazer-me compreender.
E é assim mesmo, as palavras nunca se esgotam e o desejo de se entender nunca é totalmente satisfeito. Afinal, quem pode tocar palavras?
No final, tudo acaba parecendo uma grande hipocrisia. E talvez seja mesmo. Mas achar todo mundo hipócrita é outra forma de ser.
Eu acho. E sou!
Se hipocrisia for ter em desarmonia o que se diz, pensa e faz, então sou a própria personificação da palavra. Além do mais, todo mundo sabe que quem repete demais as mesmas coisas, ainda não tem claro para si o que quer dizer. Cá estou novamente!
Mas, voltando à questão da felicidade, acho que a dificuldade em defini-la está na necessidade que temos em dicotomizar tudo, separando as palavras sempre em pares de opostos. Só que a vida não é assim, e nos prova todos os dias que os opostos se encontram e se complementam.
O sofrimento faz parte da vida e o ser humano precisa desta tensão que o perpassa continuamente, desta insatisfação que nos leva à algum lugar. O que nos move é o desejo, e o desejo nasce da falta.
Naturalmente este tema mobiliza. Como dizer que a felicidade, universalmente considerada como o horizonte da vida, não existe?
Acho que no final o grande aprendizado da vida consiste em simplificar os problemas, e simplificar-se a si mesmo. O que mais nos faz sofrer é achar que somos especiais demais, diferentes demais, tanto inferior quanto superiormente. Não que eu tenha alcançado este estado de compreensão e desapego dos meus problemas... devo estar bem longe disso. Ainda dou muita importância às minhas dores e conflitos e este blog é a prova viva disso. Mas já me dei conta desta minha desfunção, e este já é um grande passo!

Enfim, só sei falar de mim.
Eis aqui um blog egoísta e hipócrita de um ser humano estranho e confuso com um tremendo desejo de explorar as contradições do viver.






Sophia Compeagá







"- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina.
A professora olhou para Joana.- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
- Ser feliz é para se conseguir o quê?
(Um dia - Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector)

26 abril 2009

Super Zeca




"(...)Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana. Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor..." (Freud, 1926)





É, Zeca não é lá um nome de grandes origens...
Mas meu Zeca se torna herói nas tantas vezes em que me salva... especialmente de mim!
Com suas peraltices fora de hora está sempre me lembrando de não levar a vida tão à serio.
E acabo me dando conta de que talvez eu também ME leve à sério demais...
E é atribuindo tanto valor à coisas tão simples, como o reencontro do final do dia,
que ele me aponta a urgência de viver!

09 abril 2009

da repetição



Já não sei mais se realmente nossa evolução se dá por fases e fases que se sobrepõem e cada vez nos expõem a desafios maiores ao mesmo tempo que nos preparam para enfrentá-los.
.
Fatalmente tenho constatado que o que realmente nos move (ou estagna, mas nos mantém em pé) seja um estranha força gravitacional que nos atrai para um mesmo ponto e funciona enquanto nos mantemos engrenados no seu eixo, mas que, por alguma razão, pode deixar de funcionar e nos fazer, em vão, girar soltos sobre uma mesma energia que não se altera, que não se modifica, e nos faz fatigamente repetir os mesmos erros.


Mas que crescimento haveria nisso, mesmo que a engrenagem funcionasse?
Talvez estejamos falando de um espiral ascendente onde, embora esteja cada pessoa pré-destinada a girar no mesmo ângulo, de alguma forma esta energia nos eleve, e nos leve a alguma evolução.

Ignore qualquer teoria, a única certeza que tenho é de que saí do eixo. E que gradualmente tenho tentado retornar (se é que algum dia eu já estive no meu total equilíbrio e funcionamento). E já não sei dizer se há, sequer, força gravitacional alguma sustentando e integrando meus sentimentos, pensamentos e ações.
Não sei onde parei, e talvez seja esse deslocamento que me faça repetir e repetir a mesma história na tentativa de integrar alguma coisa e me tornar UMA.

Mas quem sabe Clarice esteja certa quando diz que na repetição acaba-se cavando pouco a pouco.
Quem sabe eu esteja sim no caminho certo e seja este apenas mais um momento de desafio, daqueles que nos põem em cheque e nos obrigam a enfrentar os riscos para depois nos fortalecermos com a experiência.

Talvez esteja eu, como Dorothy, trilhando a estrada de tijolos amarelos que me levam a Oz. Ou talvez esteja já em vias de me encontrar com o Mágico que me indicará o verdadeiro caminho de casa. Ou talvez esteja ainda dentro do tornado...

Acabo de me dar conta, os tornados também têm a forma de espirais...

.
Por Sophia Compeagá



08 abril 2009

Da sublimação (desta vez da 'sublimação química' mesmo)


Desisti de tentar ser feliz e escolhi viver.
A felicidade me soava como uma estagnação, e a obstinação em ser feliz me exigia um controle absoluto sobre atos e escolhas, e eu já não sei mais se quero fazer sempre as escolhas certas. Sem falar que quanto mais se tenta controlar alguma coisa, qualquer coisa, mais esta lhe escapa, inevitavelmente.
Por isso eu digo, felicidade mesmo, em estado sólido não existe. Felicidade é líquido, que não se vende em frascos...
O que eu quero e decido agora é viver da forma mais consciente possível.
Afinal, ser feliz é ouvir o anjinho ou o diabinho dentro de mim?

Eu escolhi viver, e escolhi impor respeito pelas minhas escolhas.
Pode até ser que a felicidade bata na minha porta em decorrência disso, mas que eu saiba que ela é passageira, e não tem morada.
Não que eu queira a infelicidade, ou que eu viva colecionando cicatrizes, só não quero me acomodar, até porque felicidade é coisa tal com a qual ninguém se acomoda. Como água, adquire a forma do seu receptório e, se a tentamos prender, nos escorre pelos dedos...
Talvez felicidade exista, mas tenha vida própria, e vague por aí visitando pessoas distraídas.


Com tudo isso o que eu quero dizer é muito simples, não quero me distrair, mas também não quero controlar. Só quero sentir que estou vivendo minha história ativamente. Para que no fim eu saiba que vivi à minha maneira, e se valer a pena, foi porque eu fiz ser assim.

.
Por Sophia Compeagá

03 abril 2009

Sobre cartas, irmãs e saudades...

Por Clarice Lispector


"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo.
Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...
Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".

(Carta escrita por Clarice à irmã em 1947 quando em Berna - Suiça se dizia com saudades do Brasil)





Por falar em carta à irmã e saudades, hoje a Leilane faz 20 anos!
Aff... o tempo passa! Ainda guardo viva a lembrança daquele toquinho de gente que descascava a cara das minhas bonecas.
Mas esses traumas a gente nunca esquece mesmo! =D
Querida ir, é muito bom poder contar com sua amizade que, independente do laço familiar, é sincera e incondicional. Amo e admiro sua espontaneidade, sua honestidade (isso tivemos onde aprender), sua franqueza (bota franqueza nisso) e dedicação em tudo que faz e com as pessoas à sua volta. Ser sua amiga é um privilégio, ser sua irmã é uma bênção!

Te amo muito, Nanyka!
Parabéns pelo seu dia!
Morro de saudades...

27 março 2009

Que ninguém se engane...


De todas as coisas do mundo o que realmente importa é o que realmente importa.
Ser a pessoa ideal e ter a vida "perfeita" agrada a todos menos a nós mesmos.
Não interessa se você casou virgem, torce pro mesmo time de futebol desde pequenininho e cursou a faculdade dos sonhos do seu pai se estes valores não forem realmente os seus, ou se nunca ousou questionar-se sobre eles.
O melhor da vida é reconhecer que é impossível agradar a todos, e a partir disso se abrir pro que há de vir. Porque quando se é flexível e espontâneo, se aprende a reconhecer e aproveitar as melhores oportunidades.
Quem vai fundo na vida aprende que o impossível acontece, e que se tivermos fé as coisas podem vir a melhorar. E que fé não é a crença em algo maior fora de nós, mas dentro. É aquilo que não nos deixa desistir de nós, mesmo que a realidade não aponte muitas saídas. É essa força lá no fundo que insiste em insistir.
Sejamos mais que insistentes, sejamos teimosos diante da vida, mas pacientes com nós mesmos.
Sejamos qualquer coisa mas nunca uma coisa só.
Vive bem quem desenvolve a capacidade de recomeçar.
Cada um tem um conceito de felicidade, o meu é que felicidade não existe. Perfeição muito menos.


Sophia Compeagá




"Que ninguém se engane,

só se consegue simplicidade

através de muito trabalho".

(Clarice Lispector)

11 março 2009

da tentativa de entender a fé


Tem fé quem aprendeu a reconhecer e aceitar a própria solidão e a ser sua melhor companhia. Tem fé quem confia que, na adversidade, terá sabedoria e leveza suficientes para escolher entre desafiar o destino ou submeter-se a ele. Tem fé quem tem coragem, e coragem se conquista.
Fé não é confiança cega de que tudo ocorrerá a seu favor. Fé é seguir adiante apesar da dúvida.



Sophia Compeagá

25 fevereiro 2009

Dizemos

'Dizemos aos confusos: Conhece-te a ti mesmo,
como se conhecer-se a si mesmo
não fosse a quinta e mais difícil
operação das aritméticas humanas.
Dizemos aos abúlicos: Querer é poder,
como se as realidades bestiais do mundo
não se divertissem a inverter todos os dias
a posição relativa dos verbos.
Dizemos aos indecisos: Começar pelo princípio,
como se esse princípio fosse a ponta sempre visível
de um fio mal enrolado que bastasse puxar
e ir puxando até chegarmos à outra ponta,
a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda,
tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa
e contínua em que não havia sido preciso
desfazer nós nem desenredar emanharados,
coisa impossível de acontecer na vida dos novelos,
e, se uma outra frase de efeito é permitida,
nos novelos da vida'.


Por José Saramago
.
.

23 fevereiro 2009

Sobre cães, aniversários e rimas estranhas...



Este blog vai fazer 2 anos!
Embora eu não tenha "comemorado" seu aniversário de 1 ano, vasculhando as postagens antigas, notei que foi justamente no primeiro aniversário que comecei a escrever. Até então eram apenas citações, textos de outras pessoas, já que a proposta inicial da postagem de apresentação era justamente essa.

Timidamente passei a publicar minhas próprias coisas. E eu as chamo assim, de coisas, porque prefiro não nomear essas palavras soltas como poesia ou dar qualquer outra descrição. Não me acho nenhuma escritora ou poeta (apesar de ter encontrado no dicionário "aquele que devaneia" como um dos significados de poeta e ter me identificado muito).


Nem sei se comunico alguma coisa, não sei se me faço entender. Na verdade me preocupo pouco com isso.

Refletindo sobre o sentido deste espaço pra mim, percebi que escrever aqui proporciona aquilo que eu já citava na minha
primeira postagem, de que publicar poderia vir a ser uma forma de organizar pensamentos, idéias e sentimentos.
Mas o diálogo que se dá aqui é sobretudo interno e não uma idéia pronta para ser anunciada. É, antes, algo em andamento e construção, e neste caso novamente fujo às exigências literárias, já que a principal descrição para escritor que encontrei é: autor de obras. Acontece que o que escrevo fica sempre inacabado... e talvez por isso também seja sempre angustiante.
Houve produções sim, mas num outro plano. E descobertas!

A exemplo disso, me ocorreu hoje um fato interessante. Já comentei aqui que o filme 'Mágico de Oz' tem um significado especial na minha história. E como se não bastassem os tornados invadindo meus sonhos, minhas manias com sapatos e pés, as idas e vindas que me apontam uma verdadeira jornada a ser percorrida dentro de mim, e os tantos outros símbolos deste filme que me fazem tanto sentido, me dei conta hoje da semelhança entre
Toto (o cachorrinho da Dorothy no filme) e o Zeca, meu novo cãozinho. Segue a história:

Quando meu marido e eu decidimos ter um cachorro, a intenção era adotar uma fêmea. O nome há muito tempo já havia sido decidido: Dorothy, e assim que soubemos que uma ninhada estava pronta fomos lá escolhê-la. Foi então que um sapequinha minúsculo nos escolheu primeiro: um machinho, uma bolinha de pelo que pulava na gente sem parar, lambia os nossos dedos do pé e era a coisa mais fofa. Depois dessa recepção não foi preciso pensar muito pra decidir quem levaríamos.

O Zeca chegou tem quase 1 mês, mas só hoje me dei conta da semelhança com o Toto. Talvez seja exagero meu, mas duvido. A raça nem é a mesma e a semelhança ainda é grande ao meu ver.

Não há nada demais nisso mas a cada dia descubro uma nova “coincidência”, um novo detalhe do filme me influenciando.
Acabei me lembrando também de quando era criança e inventava umas musiquinhas muito sem ritmo que incluíam um cachorrinho que chamava Toto... Nelas eu rimava ‘revólver’ com ‘cadeia’ e ‘Toto’ com "garda-rôpa". Vai entender...

E o que isso tem a ver com o aniversário do blog? Tudo! É por estes “detalhes” tão gostosos (e as vezes sofridos) de serem descobertos (ou paridos) sobre a gente mesmo, e que só vêm à tona quando se põe a investigá-los através da narrativa, que vale a pena continuar a escrever, a buscar e a me encher de coragem para fazer as perguntas certas.



Por Sophia Compeagá



Aproveitando a ocasião quero agradecer as visitas que recebo! Vocês sempre serão muito bem-vindos por aqui, assim como qualquer crítica ou comentário que possam ser sementes ou frutos de qualquer insight! Beijos à todos!

10 fevereiro 2009

Metalinguagem


De uns tempos pra cá, passei a me preocupar muito com a origem de tudo que eu leio, quem é o autor, sua formação, motivos que o levaram a escrever sobre o assunto... Claro que nem sempre consigo me informar sobre tudo isso, mas entender a história da criação da obra é tão importante quanto propriamente lê-la.

Tive um professor que sempre nos dizia para que selecionássemos muito bem aquilo que líamos, e hoje acredito mesmo nisso... Por mais que tenhamos um olhar severamente crítico sobre tudo, muita coisa passa despercebida e somos influenciados por aquilo que captam nossos olhos.

Muitas vezes começo a escrever (aqui mesmo neste espaço) e raramente sei no que vai dar. Começo com uma idéia vaga, um insight pobre, que vai evoluindo e terminando numa coisa totalmente diferente. Às vezes até duvido de que quem escreva realmente seja eu.

Mas o motivo mesmo de eu estar falando isso é que tenho me impressionado ao notar as coisas que acontecem neste processo. Sinto que escrever é como prever o futuro, envolve uma intuição que o próprio autor desconhece e não tem o menor domínio.

Quando leio coisas passadas (neste caso também envolvem minhas "antiguidades", que não constam aqui) vejo que muitas coisas que eu escrevia falavam de coisas que ainda viriam a acontecer. Textos que pareciam pobres e quase sem sentido, depois de um tempo, ganhavam todo o sentido do mundo e saíam do papel flutuando, vindo pousar sobre minha história real.

Minha vida sempre esteve envolvida em algum tema, e estes às vezes duram anos. E é preciso explorá-los muito, falar deles, questionar e escrever para que se dissolvam, e outro tema venha ocupar meus dias.

É interessante notar que estes temas se sobrepõem, como se um fosse complemento do outro. E mais interessante ainda é ver que não são só pensamentos, mas fatos, pessoas, leituras, que surgem do nada, trazendo algo desta mesma natureza para que eu possa experienciar... contracenar tornando-me a protagonista de um filme perfeito, com começo, meio e fim.

Justificando novamente, escrevo isso porque acho que acabo de encerrar um ciclo, que me proporcionou intensas experiências e grandes aprendizados, assim como noites insones, duros questionamentos e dolorosas constatações.

Se não fosse pelo meu prazer em ouvir pessoas, em solucionar problemas, em entender as coisas e sobretudo minha capacidade de empatia, eu desconfiaria de que fiz Psicologia para me auto-analisar porque estou o tempo todo questionando meus atos, palavras e sentimentos. Se isso é legal ou não já não sei dizer, talvez leve para a próxima sessão de terapia... Mas que faz minha vida mais interessante, isso faz!

Por Sophia Compeagá



"Na minha cabeça é assim:
pensamentos enfileirados
por ordem de tamanho,
obedientes e organizados,
cada um esperando sua vez.
Enquanto o da frente não avança,
os de trás não se adiantam.
Mas há dias em que saltam para fora
de mãos dadas, juntos, muitos,
de uma só vez.
- Com cautela pequeninos! Demais assim é suicídio!
A razão só nasce bem por conta gotas!"

09 fevereiro 2009

se desejas escrever sobre humanos...


“Meu jovem, se desejas escrever sobre seres humanos,

a melhor coisa é ter um casal de gatos.”

( Aldous Huxley )

08 fevereiro 2009

"Rótulos são para geléias"


Algumas verdades são duras de se aceitar, e, mesmo consciente delas, demora-se um pouco para permitir que elas façam parte da gente, sejam digeridas, interiorizadas. Para a maioria das pessoas nunca é!


Recentes leituras e experiências me fizeram rever muito de meus conceitos e valores sobre mim mesma e tudo a minha volta, e, chegar a algumas conclusões sobre o sentido da vida (que, passei a crer, é não ter sentido mesmo).
Não quero ser hipócrita, ainda não internalizei muito destas coisas, mas eis algumas das, simples mas indigestas, afirmações de que falo:

Você não vai mudar o mundo! Você não é mais importante ou especial que o resto das pessoas. Você é mais um!
Você pode fazer o que você quiser! Pode ir atrás de seus sonhos, realizar seus desejos. Ninguém define sua vida, seus valores... a não ser que você permita!
Você tem o direito de ser respeitado e pode brigar por isso!
VOCÊ É LIVRE!

Entrar em contato com nossos verdadeiros desejos impõe-nos a responsabilidade por nossos próprios atos e experiências. Mas na maioria das vezes nos vemos tentando colocar a culpa de nossos fracassos e dores em alguém ou alguma coisa fora de nós.

Sigo vendo as pessoas se consolarem ou estimularem umas às outras com alguns adjetivos contraditórios: "você é insubstituível", "você é especial" ... Como se fosse mesmo trazer algum benefício.

Para mim, nos sentirmos insubstituíveis só nos faz tentar nos manter no mesmo padrão. Nos implica numa obrigatoriedade, num dever, numa imagem fixa de si mesmo, num sintoma.

O que eu preciso é me livrar dos rótulos "positivos" assim como me livrei dos negativos.

Depois de um tempo adquirimos maturidade para questionar se o que foi aprendido durante a vida é realmente a nossa opção. É chegada a hora das grandes escolhas... e talvez seja preciso fazer algumas mudanças.

Toda mudança é complicada e sofrida, mas mudar permite refazer sua história à sua maneira.
Já dizia Lacan "na recusa nasce o sujeito".

E ao final você saberá que viveu uma vida de verdade.
Por Sophia Compeagá




"Cuidado com os seus pensamentos, eles se transformam em palavras.
Cuidado com suas palavras, elas se transformam em ações.
Cuidado com suas ações, elas se transformam em hábitos.
Cuidado com seus hábitos, eles moldam seu caráter.
Cuidado com o seu caráter, ele controla seu destino"

04 fevereiro 2009

Nuance




Ando querendo escrever algo alegre, querendo registrar as marcas coloridas das últimas vivências, mas não consigo.
Alegria é combustível para pés, porque na alegria há música e dança. O que movem minhas mãos são mesmo melancolia e confusão. Na maioria das vezes é por eles que me ponho a escrever, dedilhando teclados, decifrando dores e dúvidas.
Enquanto a tristeza questiona, a alegria não vê necessidade de entendimento. A alegria não precisa ser traduzida, tem poucas letras, é isenta de mistérios, não tem segredos.
Alegria é porta aberta, coração escancarado, sorriso largo. É cor, é imagem, enquanto a tristeza é palavra, é linguagem.
Alegria é ventre, é entrega, é liberdade. É estar, é presente! Tristeza é passado e futuro, ausentes...
A alegria É, a tristeza processa.
Alegria é excesso, tristeza é falta...
E eu me pergunto: O que seria de uma sem a outra?
Mas não quero questionar... a alegria está em mim, pura e leve, e não sei até quando. Por enquanto vou ouvir esta música desprovida de letra.
E talvez amanhã quando acordar eu possa falar dessa mágica sensação de não saber, e quase nem ser.


Por Sophia Compeagá