28 outubro 2010

descosturas


não sabia se despedir. 
não sabia romper, dar fim ou encerrar nada que fosse. 
simplesmente fugia sem pingar o ponto final do fim da história.
era incapaz de suportar a dor da constatação de uma separação e preferia fingir que não acontecera. 
se afastava acreditando que o tempo daria conta de curar as feridas sozinho.
mas sem um ponto final que arrematasse a costura, os fios se esvaíam aos poucos, desfazendo-a ponto a ponto 
até não haver mais costura, ou história. apenas uma lembrança vaga, rasa, inconsistente e vazia.
sem memória e sem história, não teria perdas pelas quais chorar. mas chorava. as vezes. sem saber por que.
não sabia que a cada esquecimento, anulava também uma parte de si, apagando parte do que havia construído de si mesma junto ao outro e no outro que guardava dentro de si.
sem encerrar uma vivência não podia iniciar outras. pensava que iniciava. mas na verdade seguia a mesma e única história que era capaz de viver. 
vivia sem existir. 

sophia compeagá

23 outubro 2010

eu, apêndice

começou com um passo atrás, em seguida outro e outro.
quanto mais se afastava, mais desejava afastar, e assim fazia.
não intentava fugir, mas a nova imagem que descobria à sua frente a cada passo era irresistível e queria experimentar mais.
ao contrário do que parecia, quanto mais recuava, mais se sentia dentro, mais se sentia parte.
pela primeira vez sentia que existia, pela primeira vez estava perto de reconhecer o próprio valor. 
reconheceu-se na falta de sua presença. através do corpo invisível que sua ausência contornava.  
nunca antes fora capaz de reconhecer-se parte. era um apêndice.
quando enfim sentiu-se inteira, depois de ter recuado tantos passos e deslumbrado um mundo enorme do qual fazia parte e no qual fazia falta, podia então retornar. 
mas não retornou.


sophia compeagá

06 outubro 2010