31 outubro 2008

do discurso...


Definitivamente, falo pelos cotovelos. Falo sozinha, falo com minhas plantas, puxo conversa com estranhos, falo sem pensar, falo pensando, penso falando.
Tenho dificuldades para conceber um raciocínio mudo.
Também adoro ouvir, aprecio sotaques, reconheço aptidões musicais, ADORO ouvir histórias. Reais ou não. Talvez eu seja mesmo muito "auditiva".
Da mesma forma, as coisas mais irritantes pra mim são as que me chegam pelo som, pela voz, ruídos que tiram o sono, palavras cortantes, músicas ruins...
Falar, pra mim, assim como escrever (e, sim, eu escrevo e leio imaginando vozes) é uma forma de me organizar, me expressar, me construir juntando os fragmentos dos pensamentos que flutuam no meu mundinho aqui dentro.
Nesse sentido, falar é descobrir, desvendar, conhecer... a mim, o mundo, as pessoas.
Acho que falo perguntando.
Inclusive acho que passo a imagem de uma certa insegurança, porque raramente duvido ou discordo das pessoas e dificilmente afirmo uma coisa com ares de certeza. E se digo alguma coisa num tom de muita imposição, logo desconfio de mim mesma.
Não que não tenha meu próprio modo de pensar, ou que mude-o de acordo com o que ouço por aí. Mas acredito e respeito a lógica interna das pessoas. Assim como sou muito grata à quem me critica.
Porque aí está uma das coisas que menos aprecio nas pessoas: a mania de querer impor seu modo de pensar aos outros, seja por prazer ou por necessidade. O mais (ou menos) interessante é que, normalmente, estas pessoas discordam de tudo. Até de quem concorda com elas, porque não param para ouvir a opinião do outro. Falam sozinhas, mas não falam para elas mesmas. Falam somente para (se) afirmar.
Quando disse que desconfiava de mim mesma ao passar perto de ter uma atitude destas, é porque acredito que, afirmar demais uma coisa, é uma forma de apontar o quão frágil me coloco diante daquela questão. Do quanto aquilo me incomoda, e da INcerteza destas afirmações.
O nível de agressividade expressado é equivalente ao grau de ameaça a que se acredita estar submetido.
Pessoas assim têm dois destinos, ou ficam sozinhas - porque não constroem relações de crescimento, aceitação e troca - ou ficam rodeados de gente insegura que mal entendem do que falam, mas lhe dão ouvidos.
Minto, gente assim também atrai gente semelhante... Posso imaginar (ouvindo as vozes, claro) como seria um diálogo desse tipo. Dois monólogos completamente desencontrados, assuntos de naturezas diferentes, como se falassem de política e jardinagem ao mesmo tempo. Ruídos...
Gente assim eu descarto. Mas aprendo com elas.
Acho que acabo de criar minha teoria das grandes discussões. Não acredito em discussões, não gosto de me envolver em grandes debates... a não ser como ouvinte, claro! Porque é impossível chegar a grandes conclusões tendo que mudar de posição sem repetir e repassar a idéia por algumas vezes na cabeça. E isto não acontece num único dia. Envolve descontruir e reconstruir idéias.
E nossas convicções são importantes para nós. Não parece, mas SIM, eu penso desta forma! Só não aceito tomar posse de uma idéia que no final vai tomar posse de mim.
Por isso admito que, embora esteja aqui justamente criticando, eu mesma muitas vezes defendi idéias com unhas e dentes, quase que literalmente. Mas depois de um tempo percebi que estava deixando de ser eu, com minha inteligência e capacidade crítica, para adotar uma idéia pronta sem a chance – ou pior, a permissão - de questioná-la ou contrui-la a meu modo.
Hoje procuro ouvir, não só o que as pessoas dizem mas também aquilo que não dizem (não estou falando de analisar e interpretar... coisa de psicólogo, credo! rsrs). Falo de ouvir a emoção que a pessoa traz através do que fala, e, sobretudo, de respeitar seu modo de expressar e pensar.
Porque há uma lógica em cada discurso e uma razão pela qual falam.



By Sophia Compeagá
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"Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim"
(Clarice Lispector)

18 outubro 2008

Simplificar-se


Para a psicanálise, quanto mais complexo for o aparelho psíquico, mais condições se terá de enfrentar situações difíceis. Ou seja, quanto mais problemas você vivenciar, sobretudo na infância, mais capacidade você terá de enfrentar novas situações problemáticas na vida adulta.

Não teme o fogo quem desceu ao inferno. Não teme a chuva quem carrega dentro de si a marca de grandes tempestades.

Claro que há casos em que o efeito se dá de outra forma, traumática, quando a pessoa não consegue dar sentido a certas vivências e integrá-las a sua história de vida. E ao invés de promover maturidade, impede a pessoa de evoluir em alguns aspectos.

Mas a vivência de complexidades nos dá recursos para simplificá-las posteriormente. Entender um problema é o primeiro passo para resolvê-lo.

E entender é uma arte que envolve reduzir o problema ao tamanho de nossa cabeça para que ele possa circular por ali sem entraves. Entender é reduzir, e simplificar.

A arte de viver bem se encontra na capacidade de simplificarmos as coisas, a vida e a nós mesmos.

A maior das dificuldades está no excesso de valor que damos à tudo. Quanto maior o desamparo, maior a carência e a necessidade de se apegar às coisas.

Não parece contraditório? Quanto mais valor damos a nós mesmos, maior nosso desamparo. E vice-versa. Enquanto vemos pregar por aí que é preciso dar mais valor a si mesmo, que cada pessoa é insubstituível, e fazendo parecer que, se nos dermos mais valor, seremos mais felizes. Eu confesso, também me confundo nesses discursos...

Pra mim, ser feliz é ter menos necessidades. E dizer que todas as pessoas são especiais é uma outra forma de dizer que ninguém é.

Para ser inteiro, seja vazio! Nossas necessidades verdadeiras estão nas coisas simples e não nas grandes complicações que embaraçam nossas vidas.

E é somente acalmando as grandes tormentas do nosso coração que poderemos ouvir claramente a voz do nosso desejo.

Pra mim, "amar a si" é ter bem definido o que se ama "fora de si". É aprender a desfazer-se das pequenas paixões e vícios que nos tiram o foco do desejo maior. É jogar fora pequenas bagagens em função de uma grande conquista. É ter coragem de ouvir a voz do próprio coração e seguir os valores que ditam a nossa consciência. É esvaziar-se de egoísmo e encher-se de vida. É abrir-se para o novo. É simplificar-se!


Sophia Compeagá

14 outubro 2008

O Vazio




"A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade..."


(Rubem Alves)

02 outubro 2008

E viveram felizes para sempre...

...porque nossos momentos
são tão incríveis e intensos
que cada segundo é eterno
mesmo que acabe!
E, já que nada é certo,
fico com a única certeza
que me resta: o que sinto:
Amor!
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25 setembro 2008

Ausência


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim".


(Carlos Drummond de Andrade)

21 setembro 2008

sobre o envelhecer...

O envelhecer não acontece de uma hora para outra, nem mesmo depois de muitos anos de vida. Envelhecemos diariamente desde o dia em que fomos concebidos. Envelhecer, amadurecer e crescer nos possibilitou sermos o que somos hoje e nos oferece, todos os dias, oportunidades de aprendizagens, conhecimentos e experiências.
Ser idoso é ter soma de vida, é ter desenvolvido paciência, sabedoria e humildade, ou não! Mas fazer parte da sociedade da forma mais digna possível.
As estatísticas nos surpreendem a cada ano quando apontam o grande crescimento da população idosa em todo o mundo e principalmente em nosso país. E isso nos faz pensar na nossa propria velhice.
Não caberia a nós, então, repensar o lugar do idoso hoje na sociedade e na nossa vida em particular para que quando for a nossa vez possamos gozar da dignidade de uma vida ativa, respeitada, onde se possa desfrutar de tudo que conquistamos durante os anos vividos, usando das ferramentas já citadas (experiências e sabedoria acumuladas) para também ter espaço e a chance de contribuir com um mundo melhor à nossa maneira?
Sophia Compeagá
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"A cada dia que vivo,
mais me convenço de que
o desperdício da vida está
no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta
que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade"
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(Carlos Drummond de Andrade)

15 setembro 2008

alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no meio do caminho...

E foi então ela se rendendo
pouco a pouco aos costumes locais,
se misturando ao que via,
se perdendo,
desfazendo-se...
até que um olhar familiar se lhe apresentou!
E lhe acolheu,
num carinho sincero,
do qual realmente estava habituada
- mas havia esquecido.
E seu coração se lembrou
de quem verdadeiramente era.
Estava salva!

Sophia Compeagá
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♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥ ♥
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.(...) Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, sem sequer precisar me procurar".
(Clarice Lispector)

07 setembro 2008

do amor e de todas as coisas...

Fui apresentada a um blog
esta semana em que todas as postagens se referiam ao amor.
Encantada com os textos, primeiramente me perguntei como alguém conseguia falar de um só assunto tantas vezes...
E foi então que percebi: todo ser que fala, fala sempre de amor. Porque é por amar que se fala! E foi o Amor Primeiro que possibilitou todas as coisas.
O amor é a raiz de todos os sentimentos. Há amor inclusive no ódio... principalmente no ódio! Contrário ao amor é a indiferença, a ausência de sentimentos.
Todos os sentimentos e ações remetem ao amor, partem do amor e se mantém pelo amor.
Amar é a única razão pela qual se vive. Quando o amor acaba deixa-se de viver por um tempo até que o coração parte denovo em busca de aventura.
Amar é viver, é esta entrega sem certeza de retorno. É saber que a vida é finita e por isso mergulhar de cabeça nos próprios sonhos. E aproveitar a festa. Antes que a música acabe. E a banda pare de tocar.
Lindas palavras as que se referiam ao amor. Mais sábias são as palavras que vêm do coração. Verdades inquestionáveis.
Amar é reconhecer-se incompleto, escrever é fazer-se infinito.

Sophia Compeagá




27 agosto 2008

Nasce mais alto!



"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para
estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver"
(Amyr Klink)

23 agosto 2008

Tristeza doce

Na alma de todo artista deve morar uma tristeza doce e
uma saudade de não se sabe o que, ou quem (ou se sabe...).
Uma tristeza mansa que às vezes vira angústia intensa,
mas que normalmente é lilás e de águas tranquilas.
Por vezes me sinto atingida por este sentimento
que me acomete normalmente em momentos desacompanhados,
mas nem por isso solitários.
Tristeza doce parece ser a falta daquilo que logo vem,
ou talvez daquilo que já se foi.
Lembrança ou esperança que se traduz num sentimento de gratidão.
Permitir-se inundar de tristeza doce é apropriar-se
da condição de solitário e incompleto mas não fechar os olhos
para o mundo e a vida em suas infinitas possibilidades!
Ao contrário, nestes raros momentos contactamos nossa essência e
nos sentimos parte de Tudo. Plenos!


Sophia Compeagá
εϊз...

30 julho 2008

25th...


É do processo natural das coisas: aprende-se a viver vivendo! E, à medida em que os anos passam, novas lições nos são apresentadas, muitas delas vindo de encontro com os nossos primeiros valores e impressões!

À medida em que minha vida foi passando, passei a me esforçar menos para agradar as pessoas à minha volta e fui percebendo que desta forma elas gostavam mais de mim.
E, apesar de saber que nem sempre o que vem de dentro é bom e adequado, me tornei uma pessoa mais espontânea! E é disso mesmo que as pessoas gostam: espontaneidade tem sabor de verdade!
Hoje ressinto-me menos, porque passei a expressar meus sentimentos na hora certa e para a pessoa certa! Mesmo que ela não saiba! Isto me evitou muitas outras brigas desnecessárias com pessoas não merecedoras do meu mau humor venenoso, principalmente eu mesma!
Dizendo essas coisas faço parecer que fui uma pessoa que guardava muitas mágoas, e que era infeliz! Não! Mas quem é que não passa por essas coisinhas e se vê chateado por uma palavra torta, pela omissão de um cumprimento, ou por coisas que nem se sabe o quê!?

Na verdade, de todas, minha principal lição foi perceber que sempre terei coisas a aprender! E que a verdade estará sempre mudando! E que quanto mais aberta eu for para aceitar isto e aprender as novas lições, mais viva me sentirei e menos sofrerei!

Também aprendi que as pessoas se vão, e só neste momento você saberá o real valor delas! Algumas, as que você achava que sentiria a maior falta, se descobrem sem o menor valor, e outras, talvez aquelas que de tão presentes em nossas vidas nos permitem nos acomodar com sua presença a ponto de esquecermos sua importância, poderão fazer uma falta enorrrrme!!!
Aprendi que tempo não significa muito... Algumas pessoas chegam, apaixonam seu coração e em pouco tempo você sabe, com uma certeza quase mágica, que esta pessoa veio para ficar!

Aprendi que família é a coisa mais louca deste mundo! E que nunca se é totalmente capaz de julgar a sua, assim como não é possível observar um objeto muito perto dos olhos, você está tão dentro dela que não pode entendê-la. E o melhor caminho para isso tudo é o amor! E, se preciso, um psicólogo que não faça parte do grupo!

Aprendi que algumas pessoas são viciantes e deixam marcas para o resto da vida, e que outras são esquecidas ao virar a primeira esquina... mas que pessoas são a melhor invenção, a melhor companhia, a melhor escola!

E os amigos, estes são bênçãos divinas, e vêm de graça! Com eles você não têm laços consanguíneos, não precisa assinar nenhum papel e por isto mesmo eles se tornam tão especiais! Porque qualquer laço criado é sinal de afinidade espontânea, de sentimento puro, e isso faz de nós seres humanos de verdade, capazes de aceitação e entrega!

Aprendi que fé independe de religião! Já passei por várias, mas é justamente hoje, quando estou fora de qualquer uma delas, onde encontro mais fé! É... talvez eu realmente tenha um olhar diferente sobre o que é ter fé. Mas sou muito mais feliz hoje na minha espiritualidade! Claro que existem outros caminhos espirituais válidos, e defendo todos eles, desde que sejam da vontade da própria pessoa. Mas para mim, foi preciso ser assim!

Gostaria de poder falar da minha profissão, do quanto ela dá sentido à minha vida, mas ainda não a tenho... Sim, estou em vias de tê-la, e por isso só posso dizer que a Psicologia me salvou muitas vezes (não estou falando do seu conteúdo, poderia ser Biologia, Filosofia, Veterinária...), e, como ouvi um dia: "estudo é um bem que você nunca perde!". É nele onde encontro meu maior prazer e realização!

Aprendi que não posso resolver os problemas dos outros! Que posso indicar caminhos, dar exemplos, que posso fazê-las olhar para si mesmas, mas não posso fazer por elas. E isso é frustrante! Principalmente quando descubro que ajudá-las é uma forma de esquecer que também tenho problemas mal resolvidos! Ai...

Aprendi que tem horas que a tristeza vem, não tem jeito! E você pode negá-la, brigar com ela, disfarçar, se drogar... mas o melhor é encará-la e tentar entendê-la. Quando ela der seu recado e cumprir sua missão, irá embora, naturalmente... porque é isso que ela é: parte da sua natureza!

E aprendi que às vezes é preciso abandonar coisas em função de outras, ou em função de nada mesmo! Que perder nem sempre significa perder! E que é preciso ter sempre fé no processo da vida e em si mesmo!

Para finalizar queria compartilhar uma frase do Caetano Veloso que muito me fez refletir nos últimos tempos: "Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minhas risadas". Porque deixar de ser vítima da própria vida e da própria história é essencial para o amadurecimento! E aprendi que é preferível, se necessário, sentir culpa do que se viveu do que perder a oportunidade de fazer a vida acontecer e poder assinar seu nome embaixo!



Sophia Compeagá

εϊз...

15 julho 2008

Pertencer

Por Clarice Lispector
"Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!"

10 julho 2008

dos laços...


Quem disse que relacionamento é coisa que deve durar pra sempre?
As pessoas se vão, de um jeito ou de outro. Algumas se vão antes mesmo de irem de fato!
Estar junto ou separado vai muito além do sacramento, do papel, da lei (que aliás tem percebido a grande complexidade das relações).

Casamento eterno é tratado religioso, que tinha como principal finalidade o acúmulo de bens. Aliás, o casamento passou por uma história interessante ao longo dos anos, sem contar as mudanças que os papéis "marido" e "mulher" sofreram e tem sofrido diante da sociedade.
Sei que com o capitalismo, a contemporaneidade vem marcada por instituições falidas: igreja, estado, família, escola, casamento. Ao contrário do que parece, este texto não vem cooperar com este fenômeno. Não quero apoiar este enorme salto estatístico das separações e divórcios dos últimos anos. Longe de mim MESMO...
Mas sou realista, as coisas nem sempre seguem como desejamos, queremos ou idealizamos.

Casamento não prende ninguém, filho não prende ninguém! "Prende", que termo estranho...
Já dizia a música: "a nossa liberdade é o que nos prende". Pra mim, casamento ideal é este! A liberdade concedida garante que o parceiro esteja com você realmente por opção!

Nem sempre funciona, mas pra mim o importante da relação é a história que a sustenta. A paixão não dura para sempre mesmo, isso é fato comprovado c-i-e-n-t-i-f-i-c-a-m-e-n-t-e! Mas o que eu também acredito e a ciência não diz é que podemos nos reapaixonar... por um gesto, por uma palavra, por alguma novidade vindo da mesma velha pessoa. Há muito ainda por nos apaixonarmos e relacionar-se exige constante criatividade!

Outra coisa que nem sempre funciona, mas pra mim se faz importante, é a, já dita, liberdade! Dar liberdade e espaço para o outro ser ele mesmo é essencial para que a relação seja verdadeiramente uma relação. Quando conhecemos uma pessoa e nos apaixonamos, quer aceitemos ou não, nós nos apaixonamos por aquilo que ACHAMOS que ela é. Antes de conhecermos o objeto de amor, já o temos idealizado, e cabe a nós depois encaixá-lo ao máximo de características possíveis da pessoa real.
O problema é que acreditamos que a pessoa é mesmo aquilo que nossas primeiras impressões apontaram. E tendemos a negar o restante que nos vai sendo apresentado pouco a pouco. E em pouco tempo estaremos acusando os pobres coitados de nos decepcionarem por não serem os mesmos de quando os conhecemos. O amor é mesmo cego...

Relacionar-se de verdade envolve aceitação e entrega. Relacionar-se de verdade proporciona autoconhecimento e evolução da alma.
E quando nos relacionamos de verdade a paixão constante é possível porque o outro será sempre outro, e estará sempre mudando, como nós também.
Mas colocar tudo isso em prática exige muito esforço... que cabe a cada um julgar se vale a pena ou não! Como tudo na vida, e como a própria vida, relacionar-se intensamente oferece perdas e ganhos. O importante é estar consciente de nossas escolhas. E investigar seus reais motivos...
Sophia Compeagá
εϊз...
"Nao precisa ser para sempre, mas precisa ser ate o fim!"
(Rosana Braga)

30 junho 2008

As palavras têm vida



As coisas não existem, as palavras existem!

Palavra é "só" representação, mas a necessidade de haver palavras para nomear as coisas significa que as coisas são inatingíveis por elas mesmas.

E a gente vive é mesmo assim... representando... vivendo e convivendo através de imagens irreais... e sem saber! Ainda bem! Afinal, saber, muitas vezes tira o encanto das coisas...

Mas escrevê-las lhes devolve um encanto especial!
Saber é absorver. Por isso leio, para que as coisas passem a existir dentro de mim.

E eu escrevo mesmo é sobre coisas que não sei. Só sei falar do que não entendo. Porque o que entendo já não importa, o que já entendo não move nada em mim! É o desconhecido que me instiga!

Viver é isso... as coisas nunca estão prontas, nada nos satisfaz plenamente e a gente nunca está maduro o suficiente.

Portanto sou, eu mesma, desconhecida para mim. Porque não sou, constantemente me torno!

E talvez por isso nunca deixe de escrever...

Quando acabarem os mistérios (e, acredite, nunca vão acabar!) eu mudarei de opinião! E passarei a rever o que já sei... Passarei a dar vida ao que já está morto dentro de mim!

Esta é mais uma das ironias da vida que eu tanto aprecio, um contraste fabuloso: fé é dúvida!




Sophia Compeagá


εϊз...

26 junho 2008

Se eu fosse falar de amor


Se eu fosse falar de amor
eu iria falar de despedidas,
eu iria falar de desencontros,
eu iria falar de esperas,
eu iria falar de distâncias.
Sim, eu iria falar de dores
porque o amor nasce mesmo é na falta.
Mas eu não sei falar de amor!
Porque o amor não pode ser traduzido.
Falar é explicar,
e o amor só pode ser sentido.

Sophia Compeagá

ઇ‍ઉ...

25 junho 2008

da perda...


"Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação de vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo."

(Carlos Drummond de Andrade)

10 junho 2008

das desconstruções que nos constroem...

Aprender a desconstruir é de longe a mais difícil de todas as aprendizagens.
Desconstruir compreende desfazer-se, desprender-se, abandonar, abandonar-se talvez.
E é diferente de destruir.
Desconstruir é um processo, exige consciência e vontade, e não é possível a qualquer um - e talvez nem necessário, afinal só desconstrói quem construiu.

Ao longo da vida construímos "verdades"... nos apegamos a idéias, pessoas, valores; formamos laços, adquirimos conhecimento. E estas aquisições definem grande parte do que somos.
Mas há momentos em que aquilo que temos como verdade não é suficiente para dar sentido aos novos acontecimentos e não se integra às novas verdades e aos novos valores. Normalmente estes momentos vêm acompanhados de dor, frustração, confusão e luto.

Algumas pessoas, quando este conflito lhes acomete, tendem à se apegar ainda mais às antigas verdades, declaram-na para si mesmas, impõe-nas aos outros. Natural! Suas verdades são sua base, seu norte, aquilo através dos quais filtram o mundo e se colocam nele. (como já disse, constitui-nos!).
Mas ao fim descobrimos que são eles que nos possibilitam o crescimento e a maturidade. É este movimento de se abrir para o novo que nos dá maior amplitude para compreender a vida e a nós mesmos.
Desconstruir é deixar para trás o que já não faz sentido agora, mas guardar conosco aquilo que de positivo aprendemos.
Uma nova etapa é sempre precedida de outras não menos importantes. Por isso é imprescindível reconhecer que o que vivenciamos numa determinada época era exatamente o que precisávamos para seguir evoluindo, assim a vida foi se revelando aos poucos para nós.

Acolha com carinho sua história e aquilo que outrora fora. Foram eles que possibilitaram ser o que é hoje e o que será amanhã.
Da mesma forma, dê espaço para que é novo (e mesmo estranho), e desconfie daquilo que mais lhe incomoda e ameaça, estes podem já fazer mais parte de você do que se supõe.


Sophia Compeagá

ઇ‍ઉ...



"Justamente sempre acontecia uma pequena coisa que a desviava da torrente principal. Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se já fosse um tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez."
(Clarice Lispector em 'Perto do Coração Selvagem')

27 maio 2008

Meu pecado de pensar

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

Clarice Lispector

Ѽ ...


23 maio 2008

Quem tem alma não tem calma

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.


Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso alheio vou lendo
Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo:"Fui eu?"
Deus sabe porque o escreveu."

(Fernando Pessoa)

19 maio 2008

da tua covardia...

Eu deveria te dizer para que se calasse por não saber do que diz! Mas te digo: fale! Fale o quanto pode, porque se te incomoda tanto é porque tem algo em você que quer sair. Sua necessidade em se manifestar indica que tem muito a dizer, talvez mais até que eu! Ah, e eu tenho muito... Mas isso não me mata, não me consome! Isso me faz VIVA, me faz melhor, me estimula a prosseguir! Talvez um dia você entenda! E eu desejo mesmo que entenda, porque não sabe ainda a nobreza que há em se pensar assim... Precisa ler, precisa ouvir, mas vejo que também precisa falar! Pois então que fale, se tem tanto a elaborar, se tem tanto a expressar, ainda que a partir da crítica... que assim seja! É teu primeiro passo! A crítica nada mais é do que aquilo que transborda em teu coração! Pois projete em mim tuas angústias... Eu te acolho!



Sophia Compeagá

εϊз...





"Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante.

Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós"

(Nietzsche)
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03 maio 2008

da eternidade das coisas findas...


O que seria do mundo sem as memórias?
O que é um país sem história?
Um povo sem suas tradições?
O que seria de um neto sem um avô
que não sabe contar histórias de assombrações?
Eu sou feita de lembranças,
de histórias,
de bons e maus momentos.
Eu sou feita de sonhos,
de idéias e ideais,
de expectativas e frustrações.
Sou feita de matéria que não se toca,
de horizonte que não se alcança,
do ontem que não volta.
Eu sou feita de muitos tempos,
todos refletidos no hoje.
O tempo está em mim enquanto estou em tudo!
Entretanto me constituo sobre a minha própria ausência,
no reconhecer de um futuro que se sabe finito.
E meu fim então me cria num tempo que não é o seu.
É quando ela, a mais carente de sentido,
dá sentido a todas as coisas.
A mais carente de vida,
dá vida a todas as coisas.
Afinal, não é preciso morrer
para nascer-se denovo.
Eternos são aqueles que se sabem mortais!

Sophia Compeagá
εϊз...

18 abril 2008

da presença da ausência...

"Eu já não me importo
se você vem
ou não.
Cansei de
esperar por alguém
cuja ausência me faz
companhia."


(Martha Medeiros )

10 abril 2008

do narcisismo...


"E um dia os homens descobrirão
que esses discos voadores
estavam apenas estudando
a vidas dos insetos..."

(Mário Quintana)

01 abril 2008

Samba da benção

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não
(...)
Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não...

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.
(Vinícius de Moraes)

04 março 2008

da ausência da presença...


"Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida."

(Clarice Lispector)

02 março 2008

Passageira




Ando e a solidão me acompanha.
Assim cheguei a este mundo. Sem memória e só...
Por sorte encontrei pessoas muito especiais que cuidaram de mim, protegeram, alimentaram, amaram...Mas ainda estava só.
E assim vaguei por muitos caminhos, me perdendo e me encontrando. Em mim e nos outros.

Defendi algumas verdades, mas compreendi que toda verdade é passageira, as minhas também foram.
Atualmente acredito que cada um acredita na verdade que lhe convém, consciente disso ou não. (Esta É a MINHA verdade!)
Mas também aprendi o quanto é importante ter algo em que acreditar... Sonho, fé, esperança e amor são alimentos para a alma. São o que dão sentido à vida.Este mesmo sentido que vivi e vivo a buscar.

A solidão é inerente ao homem.
Cada ser humano é essencialmente só, e por isso é, também, único!
Se sou passível de companhia, isto só se dá porque sou um ser só!
Tenho necessidades, logo sou incompleto. Esta é a solidão de que falo, a que move o ser!

Vim pra este mundo só e um dia irei embora dele também só.
Mas o que me permite permanecer aqui por um tempo é o meu desejo de companhia e, por vezes, minha ilusão de estar acompanhada.
E esta busca me proporciona momentos por demais especiais... O mágico encontro com o outro!

No fundo este encontro é o reconhecimento do meu sentimento de solidão presente no outro também.
Todos estamos sós. Abandonados não sei, mas sós!
E a trajetória da vida, seus obstáculos e lições teremos que atravessá-los sós.
Porque cada mérito também recebo só.
(E é por isso também que o ensinamento dessas lições é tão difícil. Uma tentativa quase inútil, já que nada substitui a experiência)
E toda experiência é individual! Cada um a sente à sua maneira e absorve o necessário para sua evolução.

Contudo descobri que a melhor companhia é a solidão do outro! Porque não há nada mais irritante e descartável que a companhia de alguém que acredita-se auto-suficiente...
.
Fala-me da tua história, fala-me da tua vida, fala-me da tua angústia, ofereça-me a tua solidão, e então teremos verdadeiramente um encontro, e serei verdadeiramente tua amiga.
Porque é justamente o que falta em ti que quero ter a ilusão de poder te oferecer.
Mesmo que seja simplesmente ouvir-te, olhar-te ou estender-te a mão.

Somos todos anjos de uma asa só.





Sophia Compeagá...

εϊз...

29 fevereiro 2008

Tão tão complexo, tão tão confuso...


Por que me é tão difícil escrever?
Talvez porque eu saiba que, independente do assunto,
será de mim mesma que estarei falando.
Poderia falar de filosofia, política, sentimentos, futilidades...
de uma forma ou de outra lá estará a minha pessoa retratada, escancarada.
Desde a escolha do título até o último ponto final.

Mas tenho pensado mesmo nisso... por que não escrever?
Escrever produz idéias, organiza as idéias.
A escrita exige elaboração, e a exposição
faz com que eu me implique ainda mais neste trabalho mental.
Antes de ser um diálogo com o outro é um diálogo comigo mesma.
É um escarafunchar de alma e um desabrochar de vida.

Escrever é simbolizar.
É dar sentido - muitas vezes até ao que não tem.
E na busca do sentido nos perdemos, nos encontramos,
nos refazemos, nascemos denovo, morremos às vezes.
É um constante ir e vir, de si, pra si.
Porque, pra mim, escrever é essencialmente procurar.
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Sophia Compeagá
εϊз...

28 fevereiro 2008

da natureza das coisas...

"...Nunca se apaixone por uma coisa selvagem, Sr. Bell - Holly aconselhou-lhe. - E foi esse o erro de Doc. Ele estava sempre abrigando coisas selvagens em casa. Um gavião com a asa ferida. Uma vez um puma crescido com a pata quebrada. Mas você não pode entregar o coração a coisas selvagens: quanto mais você dá, mais fortes ficam. Até que ficam bastante fortes para correr para o mato. Ou voar para uma árvore. Então uma árvore maior. Então o céu. É assim que se termina, Sr. Bell. Se a gente se deixa amar uma coisa selvagem. Acaba-se olhando para o céu."

(Truman Capote - Histórias Maravilhosas)




21 fevereiro 2008

Traduzir-me

Como eu os admiro, vcs escritores, que com poucas palavras e aparentemente sem muito esforço traduzem sentimentos antes tão confusos de se explicar.
Lê-los me traz companhia, mais que isso... me sinto compreendida. Muitas vezes desconfio que é de mim mesma que falam.
Pura transferência...
Ah, como eu gostaria de poder traduzir-me desta forma! Mas não tenho esta clareza, esta concordância, esta ordem.
Sou toda desordem, sou toda embaraço, sou toda complexa. Faço ganchos e me perco, dou ênfase no que não tem. Psicose pura, loucura total!
Mas que arte não a é?

Por enquanto desisti de escrever...


Sophia Compeagá
εϊз...





"Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo -quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo,
não sei me entregar à desorientação."

Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H.)

d'angústia...

"Em todos nós, no mais profundo da alma,
há uma subterrânea inquietação,
o desejo daquilo que parece sempre escapar-nos,
a dor por qualquer coisa que não sabemos bem o que seja.

Até quando estamos apaixonados e somos correspondidos,
no momento em que nos vamos embora ou o nosso amado parte,
mesmo numa seperação breve,
aquele sofrimento profundo reaparece.


Por vezes reaparece até num momento de felicidade
porque aquela felicidade se nos revela fugaz.


Nós olhamos para o céu, um pequeno pedaço de céu azul,
como que para concentrar nele toda a nossa felicidade
e sentimos tristeza porque poderemos recordar aquele céu
mas não podemos prolongar esse instante.

Experimentamos este sofrimento à noite,
sem motivo, de manhã ao acordar sem saber porquê.
A nossa alma está construída para desejar algo absoluto
e, portanto, inefável e inacessível.

Quando estamos ocupados não nos apercebemos disso (…)
mas toda a nossa vontade está orientada para a meta
e é ela que se ilumina com aquilo que procuramos sempre…"
(Francesco Alberoni in “A árvore da vida”)



19 fevereiro 2008

O VALOR DA VIDA

S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
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(Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação).
S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção.
Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos. (Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.)
Por que (disse calmamente) deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com sua agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?
George Sylvester Viereck**: O senhor teve a fama. Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo - com exceção da sua própria Universidade.
S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.
George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis.
Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liqüidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.
(Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia).
S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.
George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?
S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.
George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?
George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
S. Freud: É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer.
No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da "febre chamada viver", anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.
George Sylvester Viereck: Isto é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.
S. Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte. Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.
Neste sentido (acrescentou Freud com um sorriso) pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.
(Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete. Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud).
George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?
S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopolizá-la.
George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?
S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.
George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?
S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente. Minha filha também é psicanalista, como você vê... (Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas).
George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
George Sylvester Viereck: Minha impressão é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. "Tout comprec'est tout pardonner".
S. Freud: Pelo contrário (bravejou Freud - suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu), compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.
(Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça). Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu. (Fiquei algo desapontado com esta observação. Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças, que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente como ser humano. Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!)
George Sylvester Viereck: Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!
S. Freud: Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas, com freqüência, são também a fonte de nossa força.
George Sylvester Viereck: Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!
S. Freud: Uma análise séria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à "caça aos leões". Você procurou sempre as pessoas de destaque para a sua geração: Roosevelt, o Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Bernard Shaw...
George Sylvester Viereck: É parte do meu trabalho.
S. Freud: Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua busca é a busca do seu coração. Você está procurando o grande homem para tomar o lugar do seu pai. É parte do seu "complexo do pai". (Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda não suspeitada por mim, em sua sugestão casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele. Gostaria, observei após um momento, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o meu coração através do seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha própria imagem! Entretanto, receio ser muito informando sobre a psicanálise. Eu freqüentemente anteciparia, ou tentaria antecipar suas intenções).
S. Freud: A inteligência num paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes facilita o trabalho. (Neste ponto o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores, que não gostam de excessiva segurança do paciente sob o seu escrutínio).
George Sylvester Viereck: Ás vezes imagino se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.
S. Freud: Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.
George Sylvester Viereck: Por quê?
S. Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
George Sylvester Viereck: Meu cachorro é um doberman Pinscher chamado Ajax.
S. Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!
George Sylvester Viereck: Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado.
S. Freud: De maneira alguma. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.
George Sylvester Viereck: Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discípulos torna o problema da condução humana mais intrigante e mais contraditório.
S. Freud: A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.
George Sylvester Viereck: Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que o senhor, apegando-se a cada pronunciamento que sai da sua boca.
S. Freud: A vida muda. A psicanálise também muda. Estamos apenas no começo de uma nova ciência.
George Sylvester Viereck: A estrutura científica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos - a teoria do "deslocamento", da "sexualidade infantil", do "simbolismo dos sonhos", etc. - parecem permanentes.
S. Freud: Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.
George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?
S. Freud: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que os poetas agradecem a Whatever gods there be, That no life lives forever And even the weariest river Winds somewhere safe to sea. ("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem**/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)
George Sylvester Viereck: Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas à diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante.
S. Freud: (sorrindo) Shaw não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas peças. Ele faz brincadeira do amor de Júlio César - talvez a maior paixão da História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota. A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento. Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância. Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação.
George Sylvester Viereck: O senhor, sem dúvida, foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura.
S. Freud: Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto a sua intuição prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, e da insistência do princípio do prazer em predominar indefinidamente. O Zaratustra diz: "A dor grita: Vai! Mas o prazer quer eternidade Pura, profundamente eternidade". A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém. Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista.
George Sylvester Viereck: O senhor não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes Harvrey O'Higgins e outros fazem-se de seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O'Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o senhor. AThe Silver Cord@, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Édipo.
S. Freud: Eu sei e apresento o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus. A América foi o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são julgadores inteligentes, raramente pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mãos dos médicos, pois uma formação estritamente médica é, com freqüência, um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando certas concepções científicas tradicionais ficam arraigadas no cérebro estudioso.
(Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores. Apesar da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador. Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade! Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus).
S. Freud: Não me faça parecer um pessimista (disse ele após o aperto de mão). Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.
(O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância).
.
*Entrevista com Freud ( Concedida ao jornalista George Sylvester Viereck Alpes Austríacos - 1926 )
Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut** número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português. Tradução de Paulo César Souza
Ei-lo! O grande INSIGHT da humanidade... Dr. Sigmund Freud

18 fevereiro 2008

Clube da Luta



“O desastre faz parte da NOSSA evolução natural rumo à tragédia e à dissolução.

Estou rompendo meus vínculos com a força física e os bens materiais,

porque só destruindo a mim mesmo vou descobrir a força superior do meu espírito(...)

As coisas que você possui acabam te possuindo.

Você só é realmente livre após perder tudo.

Pois aí nao terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre."

.
CLUBE DA LUTA

17 fevereiro 2008

acabar ou transcender? ou será tudo a mesma coisa?




"Pensa num rio, denso e majestoso,
que corre por milhas e milhas entre robustos diques,
e tu sabes onde está o rio, onde o dique, onde a terra firme.
A certa altura, o rio, cansado,
porque correu por demasiado tempo e demasiado espaço,
porque se aproxima do mar,
que anula em si todos os rios,
já não sabe o que é.
Torna-se o seu próprio delta.
Permanece talvez um braço maior,
mas muitos outros se ramificam, em todas as direcções,
e alguns confluem uns nos outros,
e já não sabes o que está na origem do que é,
e por vezes não sabes o que ainda é rio e o que já é mar..."

(Umberto Eco - 'O Nome de Rosa')

15 fevereiro 2008

O homem, as viagens...





O homem, bicho da Terra
tão pequeno chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte
com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol,
falso touro espanhol domado.

Restam outros sistemas fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem (estará equipado?)
a dificílima DANGEROSÍSSIMA VIAGEMde si a si mesmo:
pôr o pé no chão do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria de conviver.



.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
.

14 fevereiro 2008

da sublimação...


"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre o seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade."





(Daniel Pennac, 'Como um Romance')

13 setembro 2007

Metade...



"Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio... .


Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade. .


Que o medo da solidão se afastee que o convívio comigo mesmose torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei..


Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção..


E QUE a MINHA LOUCURA SEJA PERDOADA.

Porque METADE DE MIM é AMOR,

e A OUTRA METADE...

TAMBÉM.".


(Oswaldo Montenegro)

27 agosto 2007

Clarice...


"Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa
quando não entendo.
Não entender, do modo como falo,
é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha,
como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso,
é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

17 agosto 2007

da morte...


"Death is a continuation of my life without me..." (Sartre)


Você é capaz de suportar essa verdade?

04 julho 2007

da sustentação...


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito
que sustenta nosso edifício inteiro."
(Clarice Lispector)

19 junho 2007

Teus pés...



"Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem".


(Pablo Neruda )